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Cantinho da Casa

Cantinho da Casa

vizinhos

Maria Araújo, 15.08.17

Vivo nesta rua desde os 10 anos de idade.

A mairoia das famílias ainda aqui vivem. Famílias que tiveram filhos. Estes cresceram, estudaram, namoraram, casaram, foram viver para outras bandas. Tiveram filhos. E vêm visitar os pais.

Havia, e há, alguma familiaridade entre nós. 

À excepção de duas  senhoras, uma faleceu há alguns anos e outra saiu daqui, que andavam sempre atentas a tudo e sabiam de tudo, e que evitávamos conversa, nunca tive conhecimento de vida de ninguém. Sabíamos da morte, infelizmente. Da vida não.

Porque preciso de pedir uma autorização para utilização dos quintais para uma instalação aqui para casa, uma das vizinhas, septuagenária, estava na janela a despedir-se de um amigo.

Aproveitei a ocasião para lhe pedir o favor.

Ela vê muito mal, não me estava a (re)conhecer.

Apresentei-me. Disse-lhe onde morava, que vivo nesta rua desde os 10 anos, qual o motivo que me levava a pedir-lhe o favor.

Perguntava-me se eu era da família x. Não se lembrava da minha família.

Convidou-me a entrar.

Eu agradeci, respondi que só queria pedir a autorização, que tinha de ir aos outros vizinhos ( e dizia os nomes para que ela entendesse que não estava a ser enganada).

Insistiu que entrasse, porque "vizinhos são amigos", dizia

E entrei.

Mostrou-me a casa, contou-me algumas estórias da sua vida ( lembro-me de ela namorar à porta de casa), dos pais, dos filhos, o divórcio, os bens que possui, o que a levou a ir viver para aquela casa, que herdou dos pais.

E ela estava feliz por me ter ali. 

Pediu-me o contacto. Trocámos os números.

E eu que pensara que sendo uma mulher rica, que não dá importância ao visual, à roupa que veste, fosse uma pessoa forreta.

É que a fama da mãe era de forreta. 

E era. 

Ela confirmou-o, ontem, com algumas estórias que me contou.

Ela é uma pessoa culta, bem disposta,muito correcta, e pelo que entendi, humana. E tem muitos amigos.

Gostei muito de conhecer esta pessoa que conheço há muito anos.

Amanhã, vou tocar à campainha do primeiro inquilino que veio viver para esta rua. A esposa, 90 anos, tem Alzheimar.

Tem assistência médica em casa e enfermagem, diária. Julgo que está acamada.

Eu não a vejo há mais de um ano, quando ela passeava aqui na rua com a empregada que cuida do casal.

Custa-me ver envelhecer estas pessoas que foram jovens. 

A partir do momento que começam a faltar as faculdades mentais e físicas,  sinto que a velhice é uma  triste dor.

 

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