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Cantinho da Casa

Cantinho da Casa

23.12.19

um conto de Natal

Maria Araújo

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Era um menino de três anos que pouco falava. Os sons que emitia seriam mais parecidos com os dos animais da quinta de uma senhora viúva, muito rica, onde os pais trabalhavam.
João comunicava por gestos, apontava para o que queria, percebia tudo o que a mãe e a irmã, de sete anos, diziam. Lurdes, a mãe, nem sempre o entendia, desesperava-se e dizia: " Esta criança não fala nada. Será muda?!"
O marido, para a tranquilizar,  dizia que tinha tempo para falar, que seria um papagaio quando chegasse a sua hora.
Rosinha, a filha, brincava com o menino, dizia-lhe o nome das coisas, mas João não repetia nada, apontava apenas.
O Natal estava a chegar, a senhora viúva vivia sozinha, os filhos estavam fora do país, era a primeira vez que não vinham neste Natal, convidou Lurdes e a sua humilde e trabalhadora família para passarem a ceia de Natal consigo.
A árvore era um pinheiro que o pai cortara na propriedade, foi posto junto àquela lareira que aquecia a sala. As crianças participaram na decoração: estrelas, bonecos e luzinhas eram a alegria das duas, do cão Bobby e da gata Mary.
A senhora viúva gostava destas crianças como se fossem seus netos. Acarinhava-os, comprava roupas que lhes oferecia, eram os seus netos de coração, os de sangue tinham tudo, nada lhes faltava.
Sentar-se à mesa da senhora para quem trabalhava, deixava Lurdes intimidada, gostava de passar o Natal em sua casa, o fogão de lenha aquecia a cozinha onde ceavam à roda da mesa, era o seu Natal, o que sempre teve.
Tomé, o marido, convenceu-a a não deixar a senhora sozinha, era a primeira vez que não tinha os filhos, dava-se um jeito. Afinal a senhora pagava-lhes o ordenado no final do mês, não poderiam deixá-la sozinha. E tanto a convenceu que Lurdes aceitou.
Fez as filhoses, as rabanadas, a aletria, os bolinhos de jerimú, os formigos, para si e para a senhora a quem servia, como era hábito todos os anos.
Na noite de Ceia, na cozinha da senhora, descascou as batatas, preparou as cenouras, a hortaliça, o bacalhau. O marido fora recolher os animais, os filhos brincavam com o Bobby e a gata Mary. De quando em vez, ouvia a senhora falar para o Bobby: " Bobby, pega, dá ao João!". E ouvia-se a bola cair no chão. " Rosinha, atira a bola ao teu irmão". Ouvia João bater palmas e emitir os sons do costume: "au, au!"
A mesa da sala fora a senhora que a pusera. Era uma mesa de ricos. Lurdes sentia-se cada vez mais tímida, não sabia comer com aqueles talheres todos, os copos que brilhavam, os guardanapos de pano com os nomes de cada um dos convidados, a sua família.
À cabeceira da mesa estava o da senhora, o seu e do marido à direita, à esquerda os das crianças.
Foi a senhora que os serviu. As crianças alegravam aquele momento em família, Lurdes esquecera o seu constrangimento, sentia-se mais à vontade naquele ambiente tão acolhedor. De facto a senhora era uma mulher simples, tratava-os como se eles fossem seus filhos.
Depois de jantar, arrumaram-se os pratos e as travessas, puseram-se os doces de Natal na mesa.
E sentados em frente à lareira, a senhora começou a cantar canções de Natal para as crianças. Rosinha conhecia-as de cantar na escola. " au, au!", ou " mé, mé", era este o registo do pequenito.
Naquela casa era tradição esperarem pela meia-noite para entregarem os presentes. Mas em casa de Lurdes não. Deitavam cedo as crianças, no dia seguinte o trabalho era o mesmo: soltar os animais e dar-lhes de cormer.
Os pequenos presentes eram postos no fogão de lenha e no dia seguinte, quando os filhos despertavam, Lurdes levava-os à cozinha para receberem o que o Pai Natal lhes deixara durante a noite.
A senhora viúva, sua patroa, conhecia bem os hábitos desta família. Por volta das onze horas, levantou-se da mesa, aproximou-se do pinheiro, pegou em quatro embrulhos e deu um a cada membro desta humilde família.
Com gestos de gratidão, escorriam as lágrimas dos olhos de Lurdes.
E como as crianças são as primeiras a receber e a abrir os presentes, Rosinha depressa abriu o seu, soltou um grito de alegria: " Obrigada, senhora. Eu sempre quis ter um unicórnio cor-de-rosa." E abraçava o unicórnio, penteava-lhe o cabelo com os seus dedos.
João, que adorava rasgar papel, puxava com força a fita e o papel. Com a ajuda do pai, rasgaram o embrulho. Os olhinhos do menino sorriram. Deu um abraço à caixa. Uma pequena pista com carrinhos, era o seu presente. E de repente, da criança ouviu-se uma pequena frase: " bigada, sheoa".
Dos olhos de Lurdes e Tomé saltaram lágrimas de felicidade.
João dissera apenas duas palavras. Mas falou.
Era noite de Natal. Para Lurdes foi um milagre de Jesus.
E João começou a falar.


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