Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cantinho da Casa

Cantinho da Casa

vizinhos

Maria Araújo, 16.08.17

a vizinha do lado, a senhora com 90 anos, doente de Alzheimer, anda a pé e está com excelente aspecto.

Viu-me, e sorriu.

" Que bem está a dona Isolina!", exclamei de alegria.

E dei-lhe um grande abraço.

Ficou feliz. Mas não falou.

E sei que não sabia quem eu era.

O marido está débil. Há tempos caiu. Já não conduz.

E confundiu-me com outra pessoa.

 

 

 

vizinhos

Maria Araújo, 15.08.17

Vivo nesta rua desde os 10 anos de idade.

A mairoia das famílias ainda aqui vivem. Famílias que tiveram filhos. Estes cresceram, estudaram, namoraram, casaram, foram viver para outras bandas. Tiveram filhos. E vêm visitar os pais.

Havia, e há, alguma familiaridade entre nós. 

À excepção de duas  senhoras, uma faleceu há alguns anos e outra saiu daqui, que andavam sempre atentas a tudo e sabiam de tudo, e que evitávamos conversa, nunca tive conhecimento de vida de ninguém. Sabíamos da morte, infelizmente. Da vida não.

Porque preciso de pedir uma autorização para utilização dos quintais para uma instalação aqui para casa, uma das vizinhas, septuagenária, estava na janela a despedir-se de um amigo.

Aproveitei a ocasião para lhe pedir o favor.

Ela vê muito mal, não me estava a (re)conhecer.

Apresentei-me. Disse-lhe onde morava, que vivo nesta rua desde os 10 anos, qual o motivo que me levava a pedir-lhe o favor.

Perguntava-me se eu era da família x. Não se lembrava da minha família.

Convidou-me a entrar.

Eu agradeci, respondi que só queria pedir a autorização, que tinha de ir aos outros vizinhos ( e dizia os nomes para que ela entendesse que não estava a ser enganada).

Insistiu que entrasse, porque "vizinhos são amigos", dizia

E entrei.

Mostrou-me a casa, contou-me algumas estórias da sua vida ( lembro-me de ela namorar à porta de casa), dos pais, dos filhos, o divórcio, os bens que possui, o que a levou a ir viver para aquela casa, que herdou dos pais.

E ela estava feliz por me ter ali. 

Pediu-me o contacto. Trocámos os números.

E eu que pensara que sendo uma mulher rica, que não dá importância ao visual, à roupa que veste, fosse uma pessoa forreta.

É que a fama da mãe era de forreta. 

E era. 

Ela confirmou-o, ontem, com algumas estórias que me contou.

Ela é uma pessoa culta, bem disposta,muito correcta, e pelo que entendi, humana. E tem muitos amigos.

Gostei muito de conhecer esta pessoa que conheço há muito anos.

Amanhã, vou tocar à campainha do primeiro inquilino que veio viver para esta rua. A esposa, 90 anos, tem Alzheimar.

Tem assistência médica em casa e enfermagem, diária. Julgo que está acamada.

Eu não a vejo há mais de um ano, quando ela passeava aqui na rua com a empregada que cuida do casal.

Custa-me ver envelhecer estas pessoas que foram jovens. 

A partir do momento que começam a faltar as faculdades mentais e físicas,  sinto que a velhice é uma  triste dor.

 

A Madame do batom vermelho, take 2

Maria Araújo, 08.04.14

 

 

 

As pontas de cigarro continuavam, e continuam,  a "acumular-se" junto à porta da minha garagem e, um belo dia, peguei na vassoura. Uma a uma, varri-as para o apanhador e guardei-as num saco de plástico, que ficou junto ao caixote do lixo que tenho na garagem. (devem cheirar mal, mas não as pus no lixo até...)

Por vezes, e se a madame do batom vermelho está por casa e vê a "cena" que propositadamente faço quando abro a garagem para tirar o carro, qual jogador de futebol, chuto as que estão ali ao meu alcance para o lado da escadas dela.

Sou paciente, mais dia menos dia eu descobria quem as lança para o chão.

O marido da madame do baton vermelho trabalha na Agere, não se me punha a hipótese de o casal poluir o ambiente (se bem que ouço coisas que não agradam ao ambiente, nem ao vizinho que vive na cave).

E já lá estão umas quantas, recentes, fresquinhas,  porque eu vou todos os dias tirar o carro.

"Quem será?", perguntava-me, olhando para os andares do outro lado do prédio onde, no 3º andar vive um moço cinquentão, fumador, que raramente está em casa.

Ora há minutos atrás, depois de lavar a loiça, fui à janela das traseiras. Com uma temperatura tão agradável, deixei-me ficar. Subitamente, olho para baixo e vejo alguém sentado(a) nas escadas com o telemóvel na mão esquerda e o cigarro na mão direita.

Rapidamente desliguei a luz da cozinha e fui para a janela. O braço era de mulher, não se via a cabeça.

Uns minutos depois,  pessoa levanta-se e vejo a madame do batom vermelho. Entrou em casa.

Como estava às escura, ela também, não vislumbrei o lançamento da ponta acesa.

E pensei: "será que apaga o cigarro dentro de casa e lança-o para o exterior?"

Os vizinhos são pessoas serenas, boa gente.

Falar com a madame do batom vermelho, não quero. Falar com o marido, nem pensar (parece-me ser controlado pela esposa)!.

Pôr um letreiro na porta da garagem, como pensara aqui: " parece-me que neste prédio não há cinzeiros dentro de casa", não tenho como afixar/prender.

Então, vou repetir o que fiz antes, mas num dia que eu pressinta que ela está em casa.

Vassoura na mão, vou juntar as pontas todas que estão prostradas em frente à garagem, junto as que tenho dentro do saco e vou depositá-las nas escadas dela.

E que não me chateie a beleza. 

Não sou mulher para discutir com os vizinhos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A madame do batom vermelho

Maria Araújo, 10.12.13

A minha garagem fica no cantinho das três que existem nas traseiras do prédio, pelo que, quando não tenha pachorra para a abrir, o carro, que não incomoda ninguém (penso eu), fica estacionado em frente. Deixo espaço  suficiente para os vizinhos do r/c entrarem em casa pela portas das traseira (como é hábito do casal e do pai dela).

Ora há cerca de três meses, reparei que na entrada da minha garagem, jaziam, com prazer de poluir o ambiente, umas quantas pontas de cigarro.

Fiquei indignada. Nunca vira tal coisa. Por vezes, o vento traz algum lixo, mas pontas de cigarro, não.

Peguei na vassoura, juntei-as e deixei-as num canto. Não coloquei no caixote do lixo que tenho na garagem porque queria ter a certeza de que o vento não as espalharia.

Elas ficaram por lá, com a agravante de, dia a dia, aumentarem as pontas fresquinhas a provocarem a minha ira.

Num dos dias que estacionei o carro na garagem, vi o vizinho da cave (senhor de 85 anos), não fumador, que também entra em casa pelas traseiras e comentei o caso.

Diz ele: "é o vento que traz".

"O vento? E como é que elas ficam todas aqui junto à minha garagem?"

Ao que prontamente acrescenta: "são os vizinhos daqui de cima!"

"Como? Mas eu nunca os vi fumar!", respondi com admiração.

"Fumam, fumam. Só podem ser eles!" retrocou.

Sempre que abro a garagem e as vejo por ali, dou-lhes pontapés com o propósito de chamar a atenção, caso a madame do batom vermelho esteja por casa, observe os meus gestos e perceba que não gosto nada do que vejo.

Ora hoje, com o carro em frente à entrada (não tinha a chave comigo, não o guardei), fui buscar a caixa onde guardo a Sagrada Família para fazer o meu mini presépio.

Os meus olhos detectaram lá, na entrada, uma ponta de cigarro com marca de batom vermelho.

Fiquei possessa. Dei um pontapé na dita cuja e resmunguei um " que nojo !" (odeio ver as marcas de baton nos copos, nas chávenas, nas pontas de cigarros, nos guardanapos. Odeio!).

Como com esta família, excepto o pai, um senhor humilde que muitas vezes me fez queixa da mazinha e egoísta que a filha é,  a minha confiança não passa de bom dia, boa tarde e boa noite, tomei uma decisão para testar a madame do batom vermelho.

Logo que tiver oportunidade, vou pegar na vassoura, junto todas as pontas no canto que dá acesso às escadas da casa da madame do batom vermelho e vou afixar um letreiro na minha garagem com " parece-me que neste prédio não há cinzeiros dentro de casa".