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Cantinho da Casa

Cantinho da Casa

chamadas "sem nome"

Maria Araújo, 05.12.19

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Ontem, fui buscar o sobrinho neto ao colégio, e como o tempo é de sol, levei o carro de bebé. Também queria levá-lo a ver a iluminação de Natal.

Seguia tranquilamente o meu caminho, uma senhora pôs-se ao meu lado, acompanhando o meu passo, comentou comigo:

- Chamadas sem nome, que nervos!

Olhei para ela, não disse nada. Não era comigo, estaria a resmungar alto e para si própria.

E continuou:

- Chamadas sem nome, apetece deitar o telemóvel para o chão. Havia de ser proibido fazer chamadas sem nome.

Sorri sem nada dizer. Acho que esperava um comentário meu, que não aconteceu.

- Porque fazem chamadas sem nome? Devia ser proibido. 

Estuguei o passo, não era nada comigo, atravessei a rua, não fiz qualquer comentário.

Ficou para trás.

Ouvi-a resmungar.

 

o parquímetro

Maria Araújo, 23.01.19

Fui buscar o sobrinho neto ao berçário ( felizmente não chovia, levei o carrinho do bebé) vinha para casa, vi e ouvi uma mulher, que tinha uma nota de 5 euros na mão, aproximar-se de um homem que passava perto e perguntar-lhe se tinha moedas e as trocava pela nota, precisava de pagar o estacionamento.

O homem respondeu que não tinha, seguiu caminho.

Ela virou-se, viu-me, fez-me a mesma pergunta. 
Sabia que tinha algumas moedas, mas que chegassem aos cinco euros não.

Abri o porta-moedas, tinha cerca de 4,30 euros , não dava para trocar.

A cem metros da rua há vários cafés, estive para lhe dizer que fosse lá trocar o dinheiro, mas quiçá naquele espaço de tempo a polícia passasse por ali e multasse a senhora?

Peguei em 0,50 euros e dei-lhos.

Não queria, que tinha algumas moedas pequenas mas que não chegavam para o tempo que precisava, que dá-me, então, as moedas que tem..."

Respondi que não queria nenhuma moeda, que as juntasse à que lhe dei e tirasse o papel, certamente que chegaria para o tempo que precisava.

Agradeceu-me muito, e eu segui o meu caminho.

Tinha razão a minha mãe quando dizia que eu jamais seria rica.

E eu não me importo nada.

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coisas do meu...

Maria Araújo, 28.02.18

ginásio.

Há uma senhora que terá cerca 70 anos, baixinha, gordinha, cheia de ouro ( nunca o tira), que frequenta as aulas de hidroginástica que é à mesma hora da minha aula de antigravity.

No final da aula, vou tomar o meu duche. 

Há uma senhora que canta no banho, de uma forma serena, e sempre a mesma canção, que é um fado..

Descobri há algum tempo que é a senhora baixinha, gordinha, cheia de ouro, que precisa de ajuda para calçar as meias, que canta sempre a mesma canção. É uma senhora simpática e alegre.

Hoje, não a vi. Mas sei que estava lá porque ouvi-a no banho a cantar o mesmo de sempre.

Embora o nome "Severa"  lembre a minha mãe, que o cantava, estou um pouco farta de a ouvir. A senhora podia mudar o CD.

E a canção é esta.

 

E na pesquisa, encontrei uma grande fadista, e o fado que me fez vir as lágrimas aos olhos...

Que saudades, mãe!

 

 

 

coisas do meu dia

Maria Araújo, 10.10.17

Estava eu na fisioterapia, deitada de rabo para o ar e enquanto a técnica auxiliar fazia a massagem à perna esquerda, falava-se de baptizados e festas de aniversário de casamento.

Tudo começou quando, na cama ao lado, a dona Dores, 88 anos, que faltara ontem à fisioterapia, e comentei que não a vira, respondeu que tivera o baptizado de um bisneto.

Às páginas tantas, a técnica diz que o marido é agnóstico e que de certeza que não quer festejar os 25 anos de casamento, porque não gosta de festas, que não é homem para estas coisas. Eu comento que se ela lhe pedir ele até aceita, e vem à conversa as casas de festas, o dinheiro que se gasta, volta a conversa para o baptizado do bisneto da dona Dores, que a festa foi muito bonita, que os pais da criança não são casados, e tal.

De repente, a técnica auxiliar pergunta-me sobre os meus sobrinhos, ao que respondo que só uma casou e baptizou a filha, no mesmo dia do casamento e porque o marido fez questão em casarem.

E que os meus sobrinhos não ligam nada a religião, embora fossem baptizados e fizessem a primeira comunhão, mas uma delas não quis andar na catequese não fez nenhuma comunhão. E que um tio foi pai e convidou-a para madrinha da filha ( ainda não houve baptizado). Ela ficou muito feliz pelo convite e foi quando eu comentei que ela não podia ser madrinha visto não ter feito qualquer comunhão e o crisma, que me respondeu que não queria saber disso, que arranjaria maneira de falar com o padre e que seria madrinha e ponto final.

Contando eu isto, eis que a dona Dores, deitada na cama, entra na conversa e com o seu jeitinho de idosa diz: " Ela não pode ser madrinha. Se não fez nenhuma comunhão nem foi crismada, não pode ser. Que carago! Que raio de educação os pais lhe deram? Não pode ser. Ela não pode ser madrinha"

De repente comento eu " na minha ingenuidade": "Sou sincera. Não sei por que não há-de ser madrinha. Sou católica, fiz as comunhões e o crisma, mas não concordo que a igreja dificulte as coisas..."

E a dona Dores, repito, com o seu jeito crítico, volta à carga.

Desato a rir. Tentei abafar as gargalhadas. A técnica auxiliar escondia o rosto de tanto rir do meu riso.

A dada altura, não conseguimos abafar as gargalhadas que nos saíam sem querer.

Às tantas, diz a técnica para a dona Dores:

" O meu filho tem 19 anos, foi baptizado, fez a comunhão mas disse que não queria ser crismado. Eu não o vou obrigar, logo ele também não pode ser padrinho de ninguém".

Aí a dona Dores calou-se. 

E as nossas risadas voltaram só de recordarmos as palavras da senhora.

Já na rua, ria-me sozinha de pensar na cena.

Que duas!

 

Subia o Arco da Porta Nova, onde àquela hora ( 15h), e diariamente, me cruzo com grupos de estrangeiros que irão, cetamente,  para o autocarro que os vai buscar e seguirem viagem.

Descia a rua um divertido grupo de raparigas (não consegui perceber se seriam estrangeiras ou portuguesas universitárias) quando, de repente, uma das que vem à frente levanta o braço e diz algo como:  "woww!"

Todas páram. Os estrangeiros que seguiam atrás, páram, também.

Simulando um laser intocável, levanta uma perna, avança alguns centímetros, a que estava ao seu lado faz o mesmo, e viram-se para as outras e fazem o gesto para continuarem a andar.

Desatam às gargalhadas as companheiras, todos os que ouviram aquele "woww!" e eu que subia a rua e me cruzei com todos eles.

Falei para o meu decote: " Hoje a tarde está a começar bem!"  

Segui o meu caminho a rir de cada vez que lembrava as cenas desta tarde.

Relaxei no SPA do ginásio com um dos dois tratamentos  de rosto que estavam em "dívida" desde Abril e eu não sabia.

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a minha ida às urnas

Maria Araújo, 01.10.17

Depois de votar, saio da escola e vejo ao longe alguém deitado num banco de pedra.

Aproximando-me, vi que era uma senhora forte.

Ninguém que passasse por ela, quer saísse quer entrasse no recinto, lhe deu importância.

No chão, junto ao banco, estava a carteira dela e a bengala encostada do outro lado. A senhora, que andaria pelos 80 anos, "jazia" de lado numa posição bastante desconfortável.

Mais perto dela, verifico que estava de olhos fechados. A primeira coisa que me veio à mente era que estaria a sentir-se mal por falta de alimento.

Toquei-lhe levemente com a mão no corpo e perguntei se estava bem.

Abriu os olhos, respondeu que sim, que estava bem, precisava de descansar um pouco.

Mais uma vez, perguntei se queria ajuda, se queria que a levasse a algum lado.

Respondeu que não.

Vejo um jovem rapaz, que vira na entrada, presumo que estaria ali para orientar as pessoas para as suas secções de voto, que se aproxima de nós e pergunta o que se passa.

Eu respondi que ela estava deitada numa posição muito desconfortável, que perguntara se precisava de ajuda, mas não queria nada.

Dirigindo-se a ela, perguntou se tinha ido votar.

Respondeu que não e que ainda ia fazê-lo mas queria descansar um pouco.

Foi então que ela diz: " Isto é fraqueza".

Perguntei se comera alguma coisa de manhã.

Respondeu que não.

O jovem pede-lhe que vá com ele para dentro da escola, há cadeiras mais confortáveis para se sentar e que iria arranjar alguma coisa para ela comer.

Ajudamos aquele corpo pesado a erguer-se, dei-lhe a bengala, o rapaz segurava-a por um braço e apoiada na bengala, seguiram os dois para a escola.

Quando me dirigia para o carro, lembrei-me que devia ter dado algum dinheiro para ela comer.