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Cantinho da Casa

Cantinho da Casa

PLIZ, o desenho

Maria Araújo, 18.04.18

O meu sobrinho neto ( carioca), 5 anos, está a aprender inglês.

Como todas as crianças que adoram desenhar, está a aprender as letras que as desenha, e, segundo a mãe, quer escrever palavras novas, mas escreve-as em espelho ( recordo-me que a Sofia fazia exactamente o mesmo).

Enviou-me alguns desenhos dos dois filhos, sendo o do rosto com riscos do mais novo, de três anos, chamou-me a atenção as camisolas das equipas de futebol, a do FCP,  que ele gosta (o pai gosta, o filho também) e o pormenor do resultado do jogo.

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O desenho do pássaros está demais. O miúdo escreveu as letras do som (pliz) da palavra "please" , e correctamente   "bus" porque conhece a palavra, ambas em espelho. 

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Adoro esta fase dos miúdos na aprendizagem das letras e dos números, os desenhos que fazem e o que escrevem.

Tenho guardado numa caixa muitos dos desenhos dos meus sobrinhos Diogo (21 anos)  e Sofia (19 anos) da altura que andavam na escola do 1º ciclo, almoçavam cá em casa e enquanto o almoço não ficava pronto, entretinham-se a desenhar os animes que viam na TV.

Recordando alguns deles... já lá vão mais de 13 anos.

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"Ai, que mãos tão geladas!"

Maria Araújo, 29.11.17

Fui visitar a minha amiga Alice.

Durante o Verão, prometera a mim mesma visitá-la, mas o calor, com o qual não me dou, fazia-me ficar em casa, adiava constantemente.

Quando abriram a porta surge ela,  rosto sorridente. Estava, hoje, nos dias normais.

Uma das nossas amigas dissera-me que um dos dias que a visitou ela estava muito abatida, nem parecia a Alice que estamos costumadas ver.

Abracei-a e dei-lhe um beijo. Perguntei-lhe quem era eu. Nenhuma das vezes que o fiz ela disse o meu nome. Hoje, era o da minha irmã que ela tinha na mente.

Descemos os corredores daquela Casa de Saúde. A minha intenção era darmos um passeio pelos jardins, apesar do frio que fazia, mas agasalhadas que estavamos, superaríamos, pensei... e mal.

Há um café  na Casa de Saúde. É hábito os familiares levarem os "doentes" para um lanche. Havia-o feito com a Alice a primeira vez que lá fui, e porque apareceram mais duas amigas juntamo-nos e lanchamos com ela.

Das outras vezes, ela dissera-me que tinha lanchado, não queria nada ( sempre que lá vou, ofereço uns chocolates ou biscoitos).  Descíamos, então, os corredores até que junto à porta do café, ela a meu lado , mete-se à minha frente para entrarmos.

Percebi que queria comer. Escolhemos uma mesa, perguntei-lhe se queria lanchar.

Nunca disse que sim. O sim dela era encolher os ombros, emitir algumas palavras inacabadas.

Eu dizia leite, sumo, bolo, ao mesmo tempo que apontava para o balcão onde se viam os sumos.

Um prato com um bolo de laranja, caseiro, em cima do balcão, destacava-se dos bolos de pastelaria menos apetitosos e convidativos.

Ela quis uma fatia de bolo e um sumo.

Enquanto a funcionária preparava o lanche, eu, de pé, tentava que ela falasse alguma coisa, até que  afago-lhe o rosto e : " Ai, que mãos tão geladas!". Foi a única frase completa que saiu da sua boca.

Veio o lanche. Ia comendo de uma forma que me pareceu inquieta. Partia pedaços grandes da fatia de bolo, mãos um pouco trémulas,  metia-o à boca, comia sem proferir uma palavra. Deixei-a comer sossegada.

Pegava no pacote de sumo, que segurava mal, percebi que tinha alguma dificuldade em levar a palheta à boca. Perguntei-lhe se queira um copo, dizia que não. De repente, ela agita o pacote e percebe que ainda tem sumo, mas não consegue sorvê-lo. Delicadamente, tirei-o da mão e reparei que com as trémulas mãos tirara a palheta e metera-a ao contrário: a parte mais comprida fora do pacote. Pus direita. Bebeu o sumo todo.

Pensei para os meus botões " Será que também tem Parkinson?"

De quando em vez, perguntava quais as actividades que fazia. Se pintava,  se desenhava.  Vendo as suas unhas pintadas, perguntei se fora ela que as pintara. Ou dizia que não, ou não conseguia completar as frases.

Às tantas, aponta para a minha camisola, com um tira em malha na gola, perguntei se gostava dela e se era bonita.

Respondeu que sim.  E comento eu de imediato: " Eu também sou bonita".

Em uníssono, saiu-nos uma gargalhada. Fez-me bem esta sua gargalhada.

Decide levantar-se. Estava a parecer-me de novo inquieta.

Fomos até ao jardim. O vento era muito frio. Subimos os fechos dos nossos casacos.

Ela não estava a aguená-lo, tosse um pouco e diz " Tenho tosse!" Está frio".

Fomos  para o corredor onde fica a sala dela, sentámo-nos a ver e ouvir as senhoras  que por lá andam, também.

A funcionária veio ter connosco, entreguei-lho os biscoitos . E soube que a Alice lanchara antes de eu chegar.
"Lanchou duas vezes", comenta a funcionária. E pergunta-lhe: 

" Esta senhora é irmã?"

A Alice olhou para mim. Não soube responder.

Respondi que era  uma amiga. 

Ela repetiu a palavra "amiga" e quando a funcionária lhe perguntou o meu nome, voltou a olhar-me e disse o nome da minha irmã.

Ela vai dizendo alguns nomes das amigas ou família que se lembra no momento, nada mais que isto.

A funcionária comentou que a minha amiga é muito educada, limpa, boa pessoa. Por vezes anda deprimida, vai-se abaixo, não consegue comunicar com as outras pessoas. Assusta-se com tudo e tem medo.

A grande amiga da Alice, mais que uma irmã de sangue, telefonou para a Casa de Saúde a pedir que, amanhã, a vistam bem porque vai buscá-la para sair.

Além da família, esta amiga é a única pessoa que tem autorização para levar a Alice a almoçar ou passear.

17horas, despedi-me. Ela ria-se.

E prometi voltar dentro de 15 dias.

 

um livro

Maria Araújo, 03.03.16

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que comecei a ler no ano passado, interrompi-o várias vezes porque dei prioridade a outros.

Ontem à noite, dediquei-me a ele.

Deixo uma bela passagem do capítulo 39.

 

" O meu primeiro impulso fora deitar-lhe fogo, mas faltou-me a coragem. Sentira toada a vida que as páginas que ia deixando ao passar faziam parte de mim. As pessoas normais trazem filhos ao mundo; nós, os romancistas, trazemos livros. Estamos condenados a perder a vida neles, emobra quase nunca no-lo agradeçam.Estamos condenados a morrer nas suas páginas e às vezes até a deixar que sejam eles que acabem por nos tirar a vida. "