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Cantinho da Casa

Cantinho da Casa

" E esta, hein?!"

Maria Araújo, 18.01.18

Fernando Pessa, conhecido por relatar situações caricatas do nosso país acabava o relato com a expressão " e esta,hein?!", veio-me à memória por algo que se passou aqui à porta da minha casa.

A minha rua tem parquímetros, poucas são as pessoas que tiram o bilhete de estacionamento. É habitual estacionarem os carros, vão à vida e depois não querem ver a multa nos seus carros. O ano passado um carro esteve estacionado 4 dias, teve direito a 4 multas.

Ora, hoje, estava eu de saída para ir à estreia do filme " As Lamas do Mississipi", reparei que um carro branco tinha uma multa no pára-brisas. Ao lado deste carro, um jipe, de onde vejo sair um homem de cerca de 50 anos que, sem olhar para lado nenhum, tira a multa do carro branco e põe no seu jipe.

Quando estava a fazê-lo, reparou que eu observava a cena, mas não alterou nada o seu gesto. Vai à porta de trás, abre-a, sai um miúda. Atravessam a rua e seguem o seu caminho.

Fiquei sem palavras. Apetecia-me tirar a matrícula e avisar a ESSE.

A sessão de cinema era às 17h20m, o filme não acabaria antes das 19h30m teria de andar 20 minutos a pé, decidi levar o carro. Voltei a casa para pegar a chave. 

Quando desci, estava o funcionário da ESSE a imprimir uma multa, que põe no jipe.  Reparei que o carro branco estava com a multa que lhe pertencia.

Fui tirar o meu carro da garagem e quando saí do portão o jipe já não estava estacionado.

O que pensei?  O chico esperto foi levar a miúda algures e para não tirar um bilhete de 25 cêntimos, o mínimo que tem de pagar, que deve ser por um período de 10 minutos, viu a multa no carro branco e pôs no seu, convicto que o funcionário da ESSE não passasse tão cedo.

Se alguém viu o que eu vi e fez queixa ao funcionário que estaria por perto,  não sei, o que sei foi que tudo aconteceu num curto espaço de tempo que não foi mais de 7 minutos.

O chico esperto pensou que teria sido eu fazer a queixa, e bem merecia que tivesse sido. Não fui, mas gozei com  a situação porque a espertície dele saiu-lhe cara. 

No meu carro, falava eu sozinha e alto: " É preciso ter lata.! Que vergonha fazer uma coisa destas! Nunca vi nada assim!"

E foi quando me lembrei do nosso saudoso Fernando Pessa que, se visse isto, diria :" E esta, hein?!"

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inacreditável!

Maria Araújo, 19.08.15

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eu e minha irmã (que está de férias) fomos ao ginásio.

saímos da aula de Pilates e como foi a primeira vez dela nesta aula, no final, o professor ficou a falar com ela.

eu segui para o jaccuzzi, ela demorava a vir...quinze minutos depois chegou.

seguimos para o banho turco por alguns minutos.

fomos tomar banho.

 à saída das instalações pedi-lhe para irmos por uma via mais perto para ela me deixar em casa.

cerca de 600m do ginásio perto de uma rotunda, vemos a polícia, que a manda encostar à direita.

sai da boca da minha irmã: "não acredito! que azar! não trouxe os documentos"

o agente percebeu pelo gesto que ela fez que não tinha os documentos.

aproxima-se, pede-lhe a carta e os documentos... e eu reclamava com ela.

saímos do carro, ela vai ao saco da ginástica, mostra-lhe a carta de condução e o cartão de cidadã e diz que nunca anda sem documentos mas como já estava atrasada , achou que não valia a pena trazê-los pois dificilmente encontraria a brigada.

o atraso dela fez com que não levasse roupa para sair do ginásio. vestiu o fato de banho (há uma máquina que seca o fato de banho em poucos segundos) e as calças.

 o agente sorriu, olhou-a de cima abaixo, e perguntou-lhe a profissão.

"engenheira", responde.

diz ele: "  pela expressão de rosto que fez, eu percebi que a senhora ficou preocupada quando nos viu".

e o homem olhava-nos e eu resmungava com ela.

às páginas tantas a minha irmã sai-se com esta: "burra, que burra que eu sou! é para aprender!

o agente riu-se e comenta "a senhora ainda diz que é burra?!"

"claro. sou burra porque eu peguei nos documentos e como achava que não encontraria a brigada, pousei-os no móvel. sou burra sim. toma, aprende!"

o agente comenta: "olhe que a brigada está onde menos se espera!"

eu ria-me.

pergunta o agente: " a viatura é sua?"

"não", respondeu, "é da empresa".

o senhor afasta-se, vai ter com o colega, leva a carta de condução e o cartão de cidadã, volta e diz: " eu vou perdoar-lhe, mas não volte a fazer isso. vê-se que é boa pessoa e que foi tão espontânea na sua reacção quando nos viu, que eu acredito no que diz".

"obrigada, senhor agente, mas eu posso apresentar os documentos na polícia".

"não, não é preciso, vá embora!", e ria-se.

entramos no carro e a minha irmã dizia "burra, burra que eu sou!"

às tantas, perguntou ele: " por onde vai a senhora?"

respondemos em uníssono: "vamos em frente!"

"está bem. pensei que ia virar à direita..."

seguimos e comentei: " inacreditável! tiveste sorte! e aprende. e não te esqueças que já foste multada por falares ao telemóvel enquanto conduzias. tu facilitas. "

desta forma safou-se de uma multa.

o agente acreditou e pode acreditar porque somos pessoas de bem, cumprimos com as nossas obrigações de cidadãs.

não foi teatro.

 

O fim do mundo não aconteceu, mas tive um dia do caraças

Maria Araújo, 21.12.12

Dormi bem. Nem sequer me preocupei com o fim de mundo.

Minha mãe dizia que o fim do mundo acaba quando morremos.

E se um dia acabar, a culpa é nossa. A Terra, se não cuidarmos dela, tornar-se-á um planeta inabitável (para longe esta boca, que quero que os meus herdeiros vivam uma vida com plena saúde e longevidade). Adiante.

Levantei-me às 5:50h. Tomei o pequeno almoço, tratei da minha beleza e, quando vejo o relógio, lembrei-me que o comboio urbano mais rápido para o Porto era às 7:45h.

Deitei-me, não fechei os olhos para não estragar a maquilhagem e esperei que o relógio despertasse às 7:00h.

Mas adormeci (de olhos abertos não, lol). Acordo e reparo que são 7:15h (o sacana não tinha despertado. O que vale é que o  tenho adiantado 10 minutos), saio da cama, visto-me , calço-me , tomo um café para despertar e saio às 7:30h em ponto.

Consigo um lugar perto da estação (felizmente o meu carro é pequeno, ficou entre uma carro e o limite do passeio da saída de uma garagem), compro o bilhete e entro no comboio (faltavam 8 minutos para a partida).

Quinze minutos após a partida, vem o revisor, pede-me o cartão (que tenho há um ano), dou-lho juntamente com o recibo, e  diz-me: "Não quero o recibo ". Entrega-mo e pega no cartão olha-o e diz: "A senhora não passou o cartão na máquina."

Parva a olhar para ele perguntei: "como?"

"A senhora tinha de passar o cartão na máquina. A multa é de 300 euros. Mostre-me o recibo".

Entreguei-o e comenta: "A senhora comprou a viagem de ida e volta hoje, mas tinha de passar o cartão na máquina."

Quando, onde, como iria eu lembrar-me  disto? As minhas viagens de combóio são esporádicas.

Desfazendo-me em pedidos de desculpa comentei:"Raramente viajo de comboio. Não me lembrei que tinha de passar o cartão. Que faço agora?"

Responde-me: "Activei o cartão, mas nunca mais se esqueça. Imagine que a senhora saía em Nine. Viajava gratuitamente"

Mais um pedido de desculpa, e safei-me da multa.

Chego ao Porto, compro um cartão para o metro e vou até ao estádio do Dragão. A partir daqui tinha de andar 1 quilómetro a pé. Nada demais. Gosto de andar. Só que a chuva miudinha era chata. Uma manhã muito cinzenta e nublada lá no Porto.

Chego ao meu destino. Tinha 3 pessoas à minha frente. Ótimo.

Depois de resolver o assunto, e decidida a passar o dia com as minhas sobrinhas e o meu sobrinho neto (que ainda não conheço. Amanhã vem para Braga), mudei os planos, pois tinha de ir à escola  entregar uns documentos.

Comboio de Campanhã com partida às 10:50h, ainda tinha tempo de tomar o café.

No café em frente à estação, sentei-me, e enquanto esperava a meia torrada, vejo um casal jovem levantar-se da mesa , junto à porta e virem na direção da minha mesa. Ela com os olhos semicerrados, pareceu-me que era invisual.

Todos os olhos caíram neste casal.

Sentaram-se perto da mesa onde me encontrava.

Entretanto, entra um jovem. Ótimo aspecto. Artista, arquiteto, ou qualquer outra arte, foi o que me pareceu ser e senta-se na mesa ao lado da minha.

Um burburinho gera-se, alguém pergunta se quer que chame uma ambulância e vejo a jovem deitada na cadeira.O companheiro não quer a ambulância e o empregado pede um copo de água morna com açúcar.

As pessoas observavam. A jovem estava pálida, muito pálida. E não era invisual. O mal estar dela fez com que o parecesse.

Entretanto, o jovem da mesa ao lado pede ao empregado: "Uma francesinha".

Os ponteiros do relógio indicavam 10: 20h (rio-me do que vou escrever).

Pergunta e comentário imediatos do empregado: "Uma francesinha?! O senhor sabe o que leva uma francesinha? Estas pessoas vêm do Alentejo e gostam de comer coisas diferentes".

E responde o jovem cliente: "Sei o que é uma francesinha. Já comi. Quero uma francesinha".

E o empregado tenta remediar o que perguntara/comentara:"Sabe, é que as pessoas do sul e os estrangeiros, quando vêm ao Porto, gostam de comer as nossas francesinhas!"

Vem a minha meia torrada, a jovem recupera, o companheiro faz-lhe umas meiguices na perna, os clientes "regressam" ao seu café, croissant, meia de de leite...

Tomo o café, pago e vou direta à estação (desta vez, não me esqueci de passar o cartão na máquina).

O combóio entra na linha, saem os passageiros, entram outros, e eu também.

Vem o revisor, pede-me o cartão e devolve-o.

"Está tudo ok,"pensei.

Do meu lado esquerdo e atrás um lugar, viajavam quatro estrangeiros, três jovens  do sexo masculino e uma do sexo feminino que trazia um turbante.

Penso que seriam de países diferentes. Mas eram todos orientais.

Quando o revisor lhes pede o cartão, eis que os olhos voltam-se para ele. Começa a falar Inglês, com alguma fluência, o suficiente para os jovens o perceberem.

Então o que aconteceu? O revisor dizia-lhes que se tinham enganado no comboio. Perguntou-lhes para onde iam.

"Aveiro", respondeu um deles.

Pois é. Os jovens vinham para Braga.
Então, o revisor explica-lhes o que devem fazer. 

Continua a sua tarefa de verificar os cartões até que numa das estações ele aproxima-se e diz-lhes que devem sair e esperar pelo comboio que vem em sentido contrário, voltarem a Campanhã e perguntarem qual a linha que deviam embarcar.

Os jovens agradecem e saem.

O revisor senta-se. Passados alguns minutos, ouve-se a sua voz ao telefone: "É para avisar que 4 estrangeiros viajavam no comboio errado. Eles vão para Aveiro. Avisa o número 22 ou 24, não tenho a certeza qual deles faz a viagem para o Porto. Diz-lhes que saíram na estação X e que os deixem entrar".

Gostei da atitude do revisor. E do modo como se exprimiu com os 4 estrangeiros.

A viagem continuou. Cheguei a Braga, vim a casa, fui ao banco, almocei uma refeição ligeira mas saborosa, e fui à escola.

Entreguei os documentos, fui desejar um Feliz Natal aos funcionários e aos elementos da direção.

Passei no Braga Parque, comprei umas prendinhas para duas amigas e aqui estou eu a escrever este meu dia de fim do mundo, que não aconteceu.

Feliz Natal.