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Gilberto Gil

por Maria Araújo, em 09.11.09
 

 

Ontem fui, pela primeira vez, à Casa da Música ver o espectáculo de Gilberto Gil.

A menina  Emília, num comentário que fez a um dos meus posts, lançou o repto e eu, entusiasmada com um convite tentador, consegui comprar o bilhete online.

Ontem fui ter com ela, a amiga Hermínia, e os maridos de cada uma.

Simpáticas e divertidas lá fomos nós a caminho do Porto.

O espectáculo era na sala Guilhermina Suggia.

Chegámos cedo, pois eu ainda tinha de adquirir o bilhete.Ainda deu tempo para tomarmos um café e convivermos um pouco.

Por volta das 22 horas, entrámos para a sala.

Fiquei deslumbrada.

 

 

Fiquei na primeira fila em frente ao palco e elas/eles, duas filas atrás.


Gilberto Gil entrou sozinho, no palco.Os aplausos soaram em uníssono.

 

 

A  primeira canção ( dedicada à esposa).

 

 

 

 

 
 Flora
Imagino-te já idosa
Frondosa toda a folhagem
Multiplicada a ramagem
De agora

Tendo tudo transcorrido
Flores e frutos da imagem
Com que faço essa viagem
Pelo reino do teu nome
Ó, Flora

Imagino-te jaqueira
Postada à beira da estrada
Velha, forte, farta, bela
Senhora

Pelo chão, muitos caroços
Como que restos dos nossos
Próprios sonhos devorados
Pelo pássaro da aurora
Ó, Flora

Imagino-te futura
Ainda mais linda, madura
Pura no sabor de amor e
De amora

Toda aquela luz acesa
Na doçura e na beleza
Terei sono, com certeza
Debaixo da tua sombra
Ó, Flora.
 

Entram em palco os músicos,  Bem Gil, seu filho,  e Jacques Morlenbaum.

Vai contando as estórias das suas letras.

Chega à que mais me tocou.

 

 

Não tenho medo da morte

 

não tenho medo da morte
mas sim medo de morrer
qual seria a diferença
você há de perguntar
é que a morte já é depois
que eu deixar de respirar
morrer ainda é aqui
na vida, no sol, no ar
ainda pode haver dor
ou vontade de mijar

a morte já é depois
já não haverá ninguém
como eu aqui agora
pensando sobre o além
já não haverá o além
o além já será então
não terei pé nem cabeça
nem figado, nem pulmão
como poderei ter medo
se não terei coração?

não tenho medo da morte
mas medo de morrer, sim
a morte e depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou

então nesse instante sim
sofrerei quem sabe um choque
um piripaque, ou um baque
um calafrio ou um toque
coisas naturais da vida
como comer, caminhar
morrer de morte matada
morrer de morte morrida
quem sabe eu sinta saudade
como em qualquer despedida.

 

 

 

 

E daquela voz forte saíam palavras que trespassavam o meu pensamento, até chegar à

METÁFORA

 

Uma lata existe para conter algo
Mas quando o poeta diz: "Lata"
Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo
Mas quando o poeta diz: "Meta"
Pode estar querendo dizer o inatingível

Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta
Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora

 

 

 

 

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