uma aventura no Porto
Estive no fim de semana no Porto.
Fui ao Coliseu Porto Ageas assistir à fantástica peça de teatro "Dois de Nós" .
Não podia deixar de ver mais uma das peças com o excelente actor António Fagundes, muito bem acompanhado de três grandes actores Christiane Torloni , Alexandra Martins e Thiago Fragoso.
Cheguei ao Porto ao início da tarde, fui ao hotel, a poucos metros dos Jardins do Palácio Cristal, para o check-in, e de seguida passear pelo centro da cidade até à hora do espectáculo.
Pensei fazer o percurso da ida para o hotel, mas decidi seguir a dica do jovem da recepção: descer uma rua oposta ao hotel e seguir pela marginal do rio Douro até ao centro.
Ficava muito mais longe que se tivesse ido pelos Clérigos.
E lembrei -me que, há uns anos, fui almoçar ao Porto com a Sofia, e depois de um passeio pelos Jardins, enganamo-nos no caminho e fizemos precisamente este percurso
E pensei no quanto andamos para chegar onde queríamos.
Devia ter voltado para trás, era mais perto. Mas fui descendo a íngreme rua.
E arrependi-me. Muito!
Transpirei imenso.
Calçava botas, usadas, mas sentia que alguma coisa magoava um dedo no meu pé direito.
E com o impacto, o joelho também dava sinal de dor, embora leve.
Quando finalmente entrei na marginal, a dor no joelho foi passando.
Demorei muito tempo a fazer a marginal, queria atravessar a ponte D.Luiz e subir ao Jardim do Morro para ver o maravilhoso pôr-do-sol.
Quando cheguei à Ribeira, uma multidão de turistas andava de um lado para o outro.Era grande a confusão.
Fugi dela, entrei numa rua estreita, mas tive de subir outra rua que ia dar a um túnel de trânsito automóvel, também com passagem para peões.
Uma grande fila de automóveis, parados, ouvia-se as buzinadelas que ecoavam nos ouvidos dos transeuntes que seguiam o seu destino nas vias pedonais.
Cheguei à Ponte.
Mais turistas que ora desciam, ora subiam os passeios para andarem mais depressa, e eu fazia o mesmo, atrasavam a minha chegada a tempo para ver o pôr-do-sol.
Subi as estreitas escadas que levam ao Morro.
O que restou do sol foi a luz ao longe detrás dos prédios.
Música demasiado alta, os turistas desfrutavam da bebida, da paisagem, da serenidade que a natureza nos dava neste fim de tarde.
Tirei as fotografias da bela paisagem que nunca cansa.

Atravessei a ponte em direção à Batalha para me "meter" na Rua de Santa Catarina, e procurar onde jantar.
O espectáculo era às 21:00h, deveria dar entrada mais cedo.
A porta do teatro fechava exactamente à hora da peça, ninguém podia entrar se estivesse atrasado.
Logo que entrei na rua de Santa Catarina, ouvia-se música de Natal.
Tive de parar.

De tanta gente que estava parada no primeiro cruzamento da rua com a Rua Passos Manuel, vi braços erguidos cujas mãos seguravam os telemóveis e filmavam...
Nas pequenas varandas do prédio em frente, cantava-se e dançava-se ao som de "All I Want for Christmas is You".
Não conseguia atravessar a rua.
Quando acabou o espectáculo, fui pedindo licença para passar, mas foi muito, muito difícil porque os encontrões eram de mais e as pessoas não arredavam pé.
Mas consegui chegar ao outro lado.
À minha frente, uma loja de roupa foi o convite a entrar e ver-me livre dos empurrões.
A minha camisa estava molhada de suor.
Decidi comprar uma sweat em algodão.
Não perdi tempo.Elas estavam bem à vista.
A jovem funcionária convidou-me a entrar nos provadores, mas não quis.
A loja estava cheia e havia fila para os provadores.
Dirigi-me ao Centro Comercial Via Catarina .
E foi aqui que procurei os lavabos.
Tirei a camisa, dobrei-a, meti na carteira, e vesti a sweat.
Aproveitei para descansar as pernas, ficaria por lá a jantar.
Cerca das oito e trinta fui para o Coliseu, que já estava a ficar composto de público.

Um à parte. Sou baixa. Tenho o azar de ter à minha frente uma mulher ou um homem mais altos que me impedem de ver o espectáculo.
E assim aconteceu.
A careca do homem à minha frente, que ora se inclinava para a direita, ora para a esquerda, não permanecia quieta, obrigava-me a fazer o mesmo para ter uma pequena visão dos actores conforme se moviam no palco.
Ao meu lado direito, pai e filho, altos, levaram-me a pensar que as pessoas que estavam atrás teriam o mesmo problema.
É o que mais me incomoda.
A peça foi fantástica.
No final os actores queriam um bate-papo com o público.
Fiquei.
Um dado momento, António Fagundes perguntou se estava na sala público de Braga.
E foram muitas as pessoas que levantaram os braços.
A peça não estava na agenda de espectáculos nesta cidade.
Saí do Coliseu para apanhar um táxi.
Vi-os junto à Câmara do Porto.
Entrei e disse ao motorista qual o meu destino, " Na direcção do Super Bock Arena, antigo Pavilhão Rosa Mota".
Que diabo disse eu para o homem começar a protestar?
"Super Bock Arena? Pavilhão Rosa Mota?
Morreu um bombeiro a cumprir a sua missão, foi o Presidente da República, foi o Primeiro Ministro. Se eu morrer em serviço ninguém vai ao meu funeral."
Levei para a brincadeira e comentei: " Pode ser que sim".
E repetia o mesmo.
O homem não se calava
"Pavilhão Rosa Mota? Porquê? "
" É Palácio de Cristal! Vêm com modernices!"
Decidi ficar calada.
"Estive no Ultramar, muitos soldados morreram, alguma vez fizeram homenagem aos soldados mortos?
Há algum monumento, ou pedra que homenageie os soldados?
Vêm cá com homenagem ao bombeiro e dias de luto. Ele estava a fazer o seu serviço."
Tentei mudar de conversa mas o homem descarregava com palavras de revolta o seu mal viver.
Não me ouviu.
Deixou-me à porta do hotel.
Paguei, saí do carro com um "boa-noite" e a falar para os meus botões ;" Que homem tão rude, tão mal com a sua vida".
Foi combatente, pelas minhas contas teria 75/ 76 anos.
Ele estava a prestar um serviço que era pago, não devia ter este tipo de conversa e soltar as frustrações para cima do cliente.
Apesar deste final de dia, a noite no Porto estava cheia de vida e luz.
Gosto do Porto!
Não gosto de turismo de massa.








