Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cantinho da Casa

Cantinho da Casa

e a prioridade aos idosos?!

Maria Araújo, 19.03.20

Agora que estamos em casa, ligo a televisão para estar a par das notícias.

De  manhã, na SIC Notícias, no Opinião Pública, uma senhora de 80 anos falava ao telefone.Vive sozinha, vive num prédio onde não tem ajuda de ninguém, o seu vizinho fechou-se em casa, usa canadianas para se movimentar.

Um dia destes, foi ao Pingo Doce, em frente a sua casa, a fila era grande, e pensando que teria prioridade, e tendo recorrido ao facto de ser idosa, foi-lhe rejeitada ( não foi dito se foi alguém do supermercado que não lhe deu prioridade ou quem estava à frente na fila)  tinha de ir para o fim da fila.

Com as dificuldades que tem de estar de pé,  à espera da vez, decidiu ir para casa.

O seu telefonema para a SIC era no sentido de pedir auxílio.

Fiquei zangada com o que ouvi.

Fosse eu que estivesse na fila,  e nem que tivesse de discutir com as pessoas ou com quem estivesse a controlar a entrada, tenho a certeza que a senhora entraria, e pediria à primeira pessoa da fila que ajudasse a senhora a fazer as compras.

E à saída,eu iria ajudá-la levá-las a casa.

Tanta solidariedade e na hora de aflição, as pessoas tornam-se egoístas.

Que tristeza.

 

 

este tempo frio

Maria Araújo, 26.04.19

é mau para os idosos.

Em dois meses, faleceram três vizinhos. 

Quinta-feira faleceu a vizinha do lado, andava eu aqui por casa, não vi nem soube de nada. 

No sábado, chegava eu da praia, encontrei um vizinho que percebeu que eu não tinha conhecimento de nada, disse-me que o funeral fora nessa tarde.

Vi saírem os filhos, fui cumprimentá-los, soube que a missa de sétimo dia estava marcada para hoje.

Não podia faltar.

E eis que no final da missa estou com a irmã de um amigo meu, perguntei pela mãe, respondeu-me que faleceu na terça-feira passada.

Segunda-feira, é a missa de sétimo dia. Mais uma vez, não posso faltar.

Esta nossa vida de nos fechamos em casa, não vamos ao café, não lemos o jornal da cidade (nem que fosse para ver a necrologia), raramente se sabe o que acontece na rua onde, em tempos, e nas férias de verão, os filhos brincavam até à meia-noite.

Éramos uma família.

 

 

 

 

não consigo perceber

Maria Araújo, 03.11.15

images.jpg

 

 

a mentalidade da maioria das pessoas que não querem fatura  das compras que fazem.

Vária vezes escrevi  e comentei que nem sempre me lembro de pedir fatura, mas se me perguntarem se quero, respondo que sim.

Na caixa do supermercado, um senhor que deve andar pelos 75 anos, foi operário na empresa do meu pai, conheço-o bem, estava a  ser um pouco grosseiro por que uma senhora  se posicionou ao lado da operadora de caixa, e falava de alguém que , porvavelmente, conheciam.

Disse-lhe para se acalmar porque a senhora estava a conversar enquanto fazia o pagamento das compras. Por sua vez,a senhora que estava à frente dele dizia: "parece-me que esta gente não tem o almoço para fazer, não saem do sítio, só conversa e mais conversa".

Quando chegou a vez do senhor e a operadora pergunta-lhe se quer fatura, responde: "Não minha, senhora! Era o que faltava, eles querem controlar o que nós compramos! Não precisam saber da minha vida".

Conhecendo-o eu, meti-me  na conversa e disse que não era bem assim, mas interrompe-me logo: "Um amigo meu disse-me que as finanças foram em cima dele porque gastou mais do que aquilo que recebe. As finanças não têm nada que saber onde gasto o dinheiro. Se as pessoas ganham 500 e gastam mil, dão um passo maior que a perna, logo, eles controlam tudo e lixam-nos a vida."

A minha vez chegou, já eu tinha na mão o cartão do supermercado, o cartão e-fatura, e o multibanco.

Comentei entre dentes: "Não vale a pena argumentar com pessoas  idosas e com ideias retrógradas".

Paguei e trouxe a minha fatura.

 

 

 

 

O respeito

Maria Araújo, 29.10.14
 

Fui ao cemitério limpar a urna dos meus familiares (não é só em vésperas de finados que o faço) fui comprar círios e flores, pedi um balde emprestado (consegui fazer tudo com a mão esquerda) e no momento que estava a fazer o pagamento, a florista (cerca de 62 anos) levanta a voz "porque a senhora quer estes fetos, mas estes não lhos dou porque são caros, dou-lhe dos outros".

Viro-me para trás e vejo uma senhora idosa, forte, vestida de preto que,com ar arrogante, reclamava o quê?

Segundo a florista me contou, a filha da idosa andara por todas as bancadas à procura de umas flores (não conheço, nem sei o nome) de cor verde, lindas, por sinal, mas muitos caras. Como nesta bancada encontrou as mais bonitas e arranjadas, comprou-as.

A idosa achava que a florista devia oferecer-lhe os fetos "x" e que ela era cliente, e que a florista tinha obrigação de lhe oferecer o que ela queria. 

A florista dizia-lhe que não lhe dava esses, mas outros mais baratos, porque também  tinha de pagar ao fornecedor e a vida dela não é fácil, por isso, dava-lhe os outros.

A senhora não tem mais nada: tira o dinheiro, paga as flores ao mesmo tempo que diz para a florista: "A senhora é uma ladra!"

Palavra que esta disse, e espanto meu que nem queria acreditar no que ouvira: "Ladra, eu? A filha da senhora andou aqui e acolá a ver as flores, veio à minha banca porque disse que as minhas eram as mais bonitos e chama-me ladra só porque não lhe ofereço os fetos mais caros? Se a senhora quer os fetos leva os que lhe ofereço, ou então não lhe dou nada!"

E a idosa continuava a reclamar e volta à carga: "a senhora é sim, uma ladra".

A filha da idosa aproxima-se, conversa com a mãe, baixinho, vira-se para a florista e diz "então a senhora não dá os fetos à minha mãe?"

A florista contou o que acontecera e que a mãe a insultara de ladra. E a filha em defesa da mãe, responde: "a senhora é uma ladra, sim!"

E foi então que a filha da florista, que fazia os ramos e mantivera-se calada, reagiu também. Vai em defesa da mãe e atiram-se às outras duas...

E eu nem queria acreditar no que ouvia e via.

Tentei acalmar os ânimos, disse à florista para não lhe responder, não se sabe o que estas pessoas podem fazer, "deixe lá", dizia eu, ao mesmo tempo que a filha desta dizia aos berros,e para arrumar com a discussão: "Mãe, esquece. Acaba com a conversa. Deixa-as ir. Cliente destas não queremos aqui. Mãe, pára de barafustar"

E a florista reclamava "Olhe que isto é um caso de políca. Chamar-me ladra! A senhora não entende que não posso dar-lhe o que quer? Ladra, eu?"

E a idosa, de bengala, e ajudada pela filha, vão para o carro. Entretanto, dois homens também de idade avançada,sentados num banco em frente à bancada, levantam-se, acompanham a senhora e a filha, entram no carro e vão embora.

Os dois homens assistiram a tudo e não intervieram. Provavelmente, já conhecem as peças (coisas minhas).

No final, comentei com a florista: "Há idosos que pensam que porque são mais velhos têm direito a benesses e abusam dos mais novos. Neste caso, não teve respeito por si. Não se incomode, está um dia bonito, esqueça o assunto".

E fui à minha vida. Quando regressei para lhes entregar o balde, elas estavam mais calmas.

É um facto que constato: os idosos merecem todo o respeito, mas muitos não têm o direito de fazerem o que lhes apetece, só porque são idosos.