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Cantinho da Casa

Cantinho da Casa

A mocidade

Maria Araújo, 30.11.11

Antes do 25 de Abril de 1974, na noite de 30 de novembro para o 1º de Dezembro, os estudantes costumavam comemorar, entre amigos, a noite do estudante, com uma festança que constava de um jantar de "arroz pica no chão" e depois, pela noite dentro, cantavam e bebiam, tirando partido desta noite que ra sua.

Naquele tempo havia muitos quintais, pertença das donas de casa que aproveitavam para criar os seus frangos e galinhas poedeiras, que eram assaltados nas noites anteriores e levados o único ou muitos frangos que existiam na capoeira.

Muitas foram as vezes que ouvíamos os frangos, aflitos, a cacarejarem por ajuda e, pimba, eram roubados dos seus ninhos de descanso para serem mortos pelas mães dos "ladrões" e cozinhados nesta noite.

Quantas mães se queixaram do roubos dos frangos, cujos autores eram os seus próprios filhos.

Aqui por casa, era eu a vítima da matança.  Segurava o frango, que naquele tempo eram autênticos galos,  enquanto a minha mãe metia-lhes a faca e eram logo encaminhados para uma bacia onde a água quente amolecia as penas para a imediata depenagem.  No dia 30, eram levados para a cantina da empresa da família para que a cozinheira de serviço adiantasse o estufado e, na hora do jantar, pussesse o arroz a cozer. Uns minutos antes de regalar os (in)consoláveis ladrôes, o sangue era colocado na grande panela, por breves minutos, e  que alimentaria  os mais de 20 estudantes que se reuniam para a festança.

A manhã do 1º de dezembro era para dormir e  curar a "saudável" bebedeira. A partir das 15 horas, os finalistas  do liceu vestiam o fato e capa pretos  e saíam à rua, munidos de uma colher de pau enfeitada de fitas de várias cores. 

As raparigas, que não participavam na noite, tinham à tarde a sua oportunidade de verem os seus amores, e serem prendadas pela aproximação dos estudantes que lhe estendia a colher para elas pudessem deixar a sua assinatura.

Mas nem todas as raparigas tinham esse prazer. Em grupo, faziam aquilo que se chamava a então "a voltinha dos tristes" (o percurso das ruas dos capelistas, rua do souto e avenida central). A tarde era "gasta" nesta volta, sempre na expetativa deles se aproximarem  e estenderem a colher.

Hoje lembrei-me desta noite de festança e descobri, porque não me recordo se a festa era comemorada por todos os estudantes portugueses, que era a festa dos estudantes desta cidade, como os Vimaranenses tiveram ontem a noite do Pinheiro e o início da festas das Nicolinas, muito conhecida e bem vivida  em  todas as ruas de Guimarães.
E pelo que encontrei aqui na internet,  os estudantes da UM ainda realizam estes jantares. Com arroz pica no chão?! O verdadeiro e único pica no chão?!

Mas os tempos são outros. Já não se roubam os frangos, já não se cozinha nas grandes casas e outros lugares improvisados para esta noite. Já não há estudantes a passear na tarde do dia 1º de dezembro, vestidos com os seus trajes, e de colher de pau na mão para as meninas terem o prazer de serem as escolhidas e deixarem lá a sua assinatura.

Já nada é como antigamente. E há tradições que deviam estar vivas.

 

 

 

 

 

  • Festas Académicas do 1.º de Dezembro — Reza a História que os Estudantes da Cidade de Braga no ano de 1640, com o intuito de comemorar a restauração da independência, saíram à rua. No meio da folia, estes jovens assaltaram galinheiros e celebraram o acontecimento bebendo e comendo um prato típico chamado "Frango Pica No Chão". A tradição do jantar do 1.º de Dezembro é ainda seguida pelos estudantes da cidade, juntamente com uma Récita que conta com a participação dos Grupos Culturais da Universidade do Minho.