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desafio de escrita dos pássaros # 10

por Maria Araújo, em 15.11.19

# Tema dez - cantinho da casa

Já chegamos? Já chegamos?

 

Na quinta, a azáfama era grande, as mulheres matavam os frangos, as bacias de água quente preparadas para os escaldar, as raparigas depenavam-os. Todos ajudavam, a criançada soltava gritos de riso, achavam piada à tarefa da depenagem.
Ouviu-se uma voz que vinha da sala:
- Madalena, vem cá e traz-me uma caneca de água fresca e um copo. Tenho a boca seca, é desta azáfama que levanta o pó que fazeis por aqui.
- Sim, avô. Já aí vou. Mas sabe avô, há muito trabalho e já só faltam dois dias para...
- Madalena, que fazes, filha? Não há tempo a perder. Olha-me essa calda para o bolo.
Joaquim estava feliz por ver aquela corrida da cozinha para o alpendre, do alpendre para a cozinha.
Era um homem magro, olhos castanhos, pele queimada de tanto trabalho debaixo do sol e da chuva que a vida lhe dera.
Criara ovelhas, porcos, galinhas. Os filhos deram continuidade àquele património que herdara do pai, há muitos anos, quando ele morreu não teria 50 anos.
Conheceu Ana, uma rapariga trabalhadora, linda, com quem viria a casar, tiveram quatro filhos: o João, o José, e os gémeos Maria e Mário.
O João e o Mário ficaram pela quinta, dedicaram-se à plantação de vinha naquelas terras que diziam ser boas.
O José é engenheiro, trabalha numa fábrica na cidade da Alemanha que não sabe dizer o nome. Tem dois filhos, os seus netos que não vê há mais de três anos.
Maria está casada, vive lá para as bandas de Aveiro, não tem filhos. " Estranho esta juventude ter filhos tão tarde. E diz ela que não tem condições. "
Amava todos os netos. Madalena era especial, a mais parecida com a sua Ana: " Tenho muitas saudades tuas minha Ana . Não há-de faltar muito tempo para me juntar a ti".
Os seus pensamentos são interrompidos pelos gritos das crianças.
Ouviu vozes que vinham do terreiro e que perguntavam: "Já chegamos? Já chegamos?"
- Madalena, minha neta, o que se passa aí fora?
Madalena não o ouviu, desta vez. Estava excitada de alegria.
Abraços e beijos, de repente diz:
- Venham ver o vosso avô.
Avô, os meu primos da Alemanha chegaram! É uma surpresa que queríamos fazer-te para festejarmos todos juntos os teus oitenta anos.
Uma lágrima escorre dos olhos de Joaquim.

Quanta alegria! Quanta emoção!
São oitenta anos de uma vida de trabalho, de dedicação aos filhos e aos netos.

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(casa de campo do Minho, imagem da internet)

 

 

 

 

Cantinho da Casa

desafio de escrita dos pássaros # 9

por Maria Araújo, em 08.11.19

# Tema nove - cantinho da casa

Acordaste nu, sem te recordar de nada, numa ilha deserta

 

Com Gertudes conversava
na esplanada do café
sobre ti, meu amigo, meu homem;
das tuas mãos que me tocam
do teu cheiro que me entontece
do teu corpo que me aquece
que quero mais que a mim.


E disse-me ela assim:
ó amiga do coraçom
tu não mereces essa coisa
o mal que ele te faz
é muito para o que lhe dás
esquece esse homem, por Deus,
não o queiras mais, por ti.

Vou contar-te uma coisa,
minha amiga Gertrudes
porque te quero muito bem;
ouve com atenção
que a minha boca calarei
que Deus me não castigue
da aventura que fantasiei.

Estava eu na praia sozinha
quando vi um homem ao longe,
fui a correr abraçá-lo
e dei-lhe um longo beijo;
deitamo-nos na areia quente
fizemos amor com desejo
"oh! que bom, voltaste!"
pensando que era ele, enganei-me.


Quando amanheceu minha amiga,
meus olhos mal se abriram
o sol era demais
senti o corpo queimado,
vi tudo branco, sem fim
uma ilha deserta me pareceu
e meu amigo, meu homem, não vi.

Olhei pra mim e gritei
"estou nuinha, sem roupa,
ai Jesus, o que me aconteceu?!";
chorava desesperada,
fui ao mar lavar o rosto
pedi a Deus que me acudisse.


Senti um abanão
acordei assustada
estava nua na cama,
os lençóis brancos revoltos.
meu marido ria-se da cena
e eu não me lembrava de nada.

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Cantinho da Casa

desafio de escrita dos pássaros # 8

por Maria Araújo, em 01.11.19

# Tema oito - cantinho da casa


" Escreve uma carta para a criança que foste"

 

 

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Nasceste em Fevereiro, num Domingo de Lua Cheia, em casa.
Quando o recém-nascido é entregue à mãe, a sua primeira reacção é que os olhos e o coração contem os dedos das mãos, vejam a perfeição do rosto, se choram, se vêem.
Não imagino, nem nunca me contaram, como ficou quando te viu: se chorou, se gritou, se foi apoiada por quem lhe fez o parto. Foste operada, duas, três vezes.
À medida que o tempo passava, crescias com saúde, a tua irmã mais velha era a tua intérprete (seria esta, mais tarde, a sua profissão, em inglês, alemão e francês), havia uma grande cumplicidade entre vós, e que seria para toda a vida, trabalharam juntas. Ela compreendia-te muito bem. E corrigia-te.
E tu corrigias-te.
Convivias com as crianças da tua rua, eras a Maria rapaz, gostavas de fazer do corrimão de pedra da rua onde viviam os teus avós paternos, que muito gostavas, o teu escorrega e a mãe repreendia-te porque rasgavas as cuecas, ou tentavas arrastar-te no chão e sujar o vestido que não gostavas, quando ela queria que o vestisses.
Entraste na escola, arranjaste amigas, eras uma criança bem comportada, aplicada nos trabalhos de casa. Alguma dificuldade que tivesses a tua mãe e a irmã ajudavam-te. Em casa, colaboravas nas tarefas domésticas, ias às compras ao mercado, foste sempre cumpridora, mesmo que a vontade fosse pouca e respondias "vou já" quando te chamava uma, duas , três vezes, e a deixavas muito zangada. Mas sempre foste uma criança educada. E muito, muito tímida.
Os adultos tinham alguma dificuldade em te perceber, descontraidamente dizias o que tinhas, arranjavas sempre uma forma de te exprimir, contrariamente às crianças da tua idade que nunca mostraram qualquer dificuldade em perceber o que dizias.
Provaste que uma criança também sabe vencer o preconceito, nunca te foste abaixo, eras uma criança como todas as outras. Excepto para alguns adultos, como mais tarde, já adulta, vieste a constatar.
Quando a tua mãe te deu à luz, e nessa altura não existiam as ecografias em tempo real , teria ficado triste, sem saber o porquê daquilo.
Ela dera à luz uma menina com uma fissura lábiopalatina.
Prometeste que, se um dia fosse possível, irias corrigir estes pequenos problemas, que não eram problemas para ti mas para os outros, os adultos.
E corrigiste-os.

 

Aviso aos pássaros

Por que me dá prazer ler e comentar os vossos textos à sexta-feira e/ou sábado, este fim de semana não o farei, estarei a gozar umas mini-férias, não terei oportunidade de andar pela internet.

Bom fim-de-semana.

Cantinho da Casa

desafio de escrita dos pássaros # 7

por Maria Araújo, em 25.10.19

" Desafio de escrita dos pássaros"

 

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# Tema sete - cantinho da casa

 

«A Constança precisa duma máscara capilar mas o teu patrão só quer que vendas compotas de abóbora com amêndoa. Convence-a a escolher a compota para usar »

 

Na loja de senhor Ernesto
Há arroz, massa, feijão, e tudo e tudo
Lixívias, detergentes, sabões
Tintas, pinceis, vernizes
Agulhas, tesouras, linhas.

Sais de banho, sabonetes, velas perfumadas,
Na vanguarda o senhor Ernesto está
Dildos, preservativos, lubrificantes, brinquedos
" A Loja das Tentações" há tudo e tudo.


Entrou dona Constança na loja,
Quer uma márcara para o cabelo
"Senhor Ernesto, tem máscaras?"
Responde de dentro a Justina:
"O senhor Ernesto não está,
Estou eu para ajudar".

"Quero uma máscara capilar
Para o meu cabelo hidratar.
Veja lá menina Justina
O que tem para me dar".

"Não temos máscaras capilares,
Compotas temos cá muitas
De mel, de framboesa, de morango,
É a de abóbora e amêndoa
A especialidade cá da casa".

"Que está para aí a dizer,
Não pedi compota, não.
Pedi máscara capilar
Para o meu cabelo hidratar".


"Digo-lhe senhora Constança
O meu patrão recomenda
Compota de abóbora e amêndoa
O seu cabelo vai alimentar ".

"Compota de abóbora e amêndoa
No cabelo vai colar
Quero uma máscara capilar
Para o meu cabelo hidratar".

"Compota de abóbora e amêndoa,
Diz o senhor Ernesto que é do melhor,
Não sei mais o que fazer
Para a convencer a comprar.

São produtos naturais
Caseiros cá da loja
Feito pela dona Rosa
Mulher do meu patrão."


"Uma máscara de compota
Nunca ouvi coisa tal
Convenceste-me,Justina,
No meu cabelo vou experimentar".

"Aproveite senhora Constança
Esta combinação de sabores,
"É três em um", diz dona Rosa,
Prá boca degustar,
Pró cabelo hidratar,
E na cama se lambuzar".

 

 

Cantinho da Casa

desafio de escrita dos pássaros # 6

por Maria Araújo, em 18.10.19


" Desafio de escrita dos pássaros"

# Tema seis - cantinho da casa


«O Amor, uma cabana… e um frigorífico»

Acabadas as férias dos pais, pedira-lhes que deixassem o atrelado-caravana no parque de campismo até ao fim de Verão.
Bastava puxar a lona e prendê-la com as espias, tinha uma casa de férias, cozinha, e um quarto confortável, "que maravilha!", os bicharocos (só de pensar neles eriçavam-se-lhe os pêlos) não a incomodariam durante o sono.
As amigas aproveitavam a "casa" passavam uns dias com ela. Lugares e cidades interessantes, ali tão perto, praia, campismo, Espanha na outra margem do rio Minho, os passeios eram frequentes, e praia, muita praia. As noites eram para jantares, com risos e muito convívio, para dançar, ou para as conquistas.
Embora não gostasse de ficar sozinha no campismo, decidira passar lá o fim de semana, precisava de descanso.
Ela gostava de mais dele. Precisava dele. E queria-o.
Ele tinha a tenda no parque de campismo, em Viana, de lá a Caminha era um passo.
Telefou-lhe.
Ele aceitou.
Levara de casa uns bifes que deixara temperados para o jantar, na hora cozinhariam juntos.
A tarde foi passada numa das esplanadas de Caminha. Não faltavam amigos e pessoas conhecidas que faziam férias por lá.
Estava um final de dia fresco, regressaram ao parque. Àquela hora, as pessoas encontravam-se no bar, decidiram tomar uma bebida.
Ele ficou por lá mais uns minutos, ela foi preparar as coisas para fazer o jantar.
Quando tirou a tampa que cobria o prato onde estavam os bifes, uma colónia de formigas passeava por cima deles e por toda a mesa.
" Que é isto? Que merda! O que faço agora? O que vamos jantar?".
Enojada com aquilo, pegou no prato, foi a correr pô-lo no lixo, ao mesmo tempo que elas subiam -lhe para o braço. Sacudiu-o, sacudiu-se... e coçava-se de arrepio.
Ele chegou. E viu que ela passava na mesa folhas molhadas de papel de cozinha.
Perguntou-lhe por que fazia aquilo.
Ela contou-lhe que as formigas tinham invadido os bifes, que não havia jantar.
As covinhas dele mostraram o sorriso malandro, ao mesmo tempo que lhe disse que jantavam fora.
E assim foi.
O tema desta semana trata de "O Amor, uma cabana... e um frigorífico".
De facto, existia uma caixa frigorífica portátil que os pais levavam para casa depois das férias e que se esquecera dela naquele fim de semana.
Nesse tempo vivia-se o amor, uma caravana... e o frigorífico que nunca existiu.

 

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Cantinho da Casa

desafio de escrita dos pássaros # 5

por Maria Araújo, em 11.10.19

Ri-me quando li o tema do texto para esta semana.

"Estes mentores lembram-se de cada uma! Onde iria eu encontrar palavras para escrever sobre um homem que fez tão mal ao seu semelhante?" , comentei com o meu decote.

Escrevinhando enquanto as ideias surgiam, ficou assim o texto:


# Tema cinco 


"Estás na fila para o purgatório e Hitler está à tua frente. Ninguém o quer aceitar e a fila não anda. Escreve a tua intervenção para convencer um dos lados a aceitá-lo".

 

- Que discussão é esta?!
- Ich bin Adolf Hitler. Ich war der größte Mann auf dem Planeten!!!
- Eu sou Rebeca, sou judia, com muito prazer. Nome bíblico, de origem hebraica, que, segundo o significado, sou a ligação, aquela que cativa os homens. E sou uma mulher bela, não sou, Herr Adolf?
- Por favor, deixem-se de provocações. A fila é longa, há muitas almas para seleccionar. Cada um de vós tem direito a três minutos ...
- Du bist Judische, Ich war de Mann der das judische volk vernichtete ( Tu és judia e eu sou o homem que aniquilou o povo judeu).
- Estais aqui como candidatos à formação em "A Purificação das Almas nos Tempos Modernos", fala um de cada vez. A Rebeca diz ser judaica. O que a levou a escolher o Purgatório para realizar a sua formação?
- Senhor Omar, na minha outra vida fui massoterapeuta desde os 20 anos.Tenho experiência em todo o tipo de massagens ( quick massage, shiatsu, massagem clássica, tuiná e outras), os meus clientes eram maioritariamente do género masculino. Cuidava-lhes do corpo e da mente, relaxava-os do stress do dia-a-dia. Grande obra foi a minha na Terra!
- Senhor Hitler, os seus "feitos" chegaram cá ao Purgatório pelos piores motivos. Porquê entrar nesta formação?
- Ich, Adolf Hitler, fundeirr der Fuhrer und war, der Mann mehr famoso Kanzler der welt ( Eu, Adolfo Hitler, fundei o furher, o mais famoso Chanceler do mundo). Ich merecerr der lugarr. Ich wolle purificarr meine alma.
- Eu mereço o lugar, senhor Omar, eu dei a minha vida pelo conforto dos homens. Esse senhor foi um assassino, deve ir para o Inferno...
- Nein! Ich bin Hitler!! Ich war der größte Mann auf dem Planeten! ( Não! Eu sou Hitler! Eu fui o maior homem do planeta).
- "Diante de Deus e do mundo, o mais forte tem o direito de afirmar a sua vontade." foi o que o senhor disse aos homens. E a sua vontade foi matar e agora quer redimir-se do impossível?! Não! Aqui a justiça é justa. O senhor foi por todos odiado na Terra.
- Senhor Omar, como é?! Vamos lá despachar isto, é a nossa vez de falar!
- Senhor Adolf, o senhor tem muito que penar para chegar aqui, se chegar! A Rebeca cuidou dos homens. E eu quero-a para esta formação.
Bem-vinda ao Purgatório, minha senhora.
- Nein, nein, nein!

 

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imagem daqui

Cantinho da Casa

desafio de escrita dos pássaros # 4

por Maria Araújo, em 04.10.19

«A Beatriz disse que não. E agora?»

 

- Por que não lhe contaste, Laura? Sois namorados, há uma grande cumplicidade entre vós, o Bruno vai compreender-te...
- Decidi que seria um segredo meu , mas contei à Beatriz, Marta, porque tudo aconteceu em casa dela.
Todos tinham saído, ficáramos só nós os três. Tinhamos bebido de mais, contaram-se anedotas, a Beatriz foi dormir, ficamos os dois mais um pouco sentados no sofá. Mais um copo, a conversa teve outro rumo, ele aproximou-se e as nossa bocas uniram-se num intenso beijo, as nossas mãos tocaram-se, percorreram o nosso corpo, aconteceu o que não devia ter acontecido. Adormecemos no sofá. Quando de manhã cedo acordei, ele não estava lá. A minha cabeça latejava, sentia a boca amarga dos cigarros que fumara, do vinho que bebera.
Quando Beatriz se levantou e apareceu na sala, eu estava sentada com a cabeça entre as mãos, caíam-me as lágrimas.
Contei -lhe o que acontecera quando nos deixou sozinhos. Que estava arrependida de ficar lá , que o Bruno ia condenar-me quando lhe contasse o que aconteceu, que ele ia cobrar-me porque estivera fora do país e eu dormira com outro homem, que o traí, o que iria ser da nossa relação com o remorso presente na minha vida.
-Laura tu és responsável pelos teus actos, mas sinto que a Beatriz não é a melhor companhia para ti. Por que razão havia de te deixar sozinha com o João?
- A Beatriz mostrou ser sempre uma amiga, ajudou-me em várias situações da vida, nos problemas que tinha, e tenho, com o meu pai, um homem agressivo com todos quando bebe demais. Podes ter uma opinião negativa a seu respeito, e compreendo, ela não é uma simpatia contigo, entendo que seja uma pessoa controladora, mas eu agradeço o que tem feito por mim.
- Ela disse-te que o João é casado, Laura?
- Casado?! Não! Não me disse nada. Ele foi tão simpático, tão divertido, tão doce...e eu sentia-me muito frágil.
- Laura, conheceste o João numa noite! Se gostas do Bruno, se queres continuar a vossa relação, tens de contar a verdade. O que te disse ela a respeito?
- A Beatriz disse que não. E agora?!
- Agora não vais fazer a vontade dela. Vais fazer o que diz o teu coração, Laura.
- Não sei. Eu acho que ela tem razão. Não é a altura certa. Talvez um dia... Não sei.

 

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imagem pinterest

Cantinho da Casa

desafio de escrita dos pássaros # 3

por Maria Araújo, em 27.09.19

«Uma aventura/momento que te tenha marcado»


Alinhara num convite da Diver Lanhoso para viver um dia de aventuras no Parque, ansiosa pelo que iria viver naquele dia louco que eu pensava ser para os jovens, como estava enganada!, levantei-me cedo e cansada.
Manhã fresca, com sol, encontrámo-nos junto à Escola EB 2,3, dirigimo-nos para o castelo da Póvoa de Lanhoso, onde já se encontravam todos os inscritos, os monitores e o satff da Diver.
Constava de várias etapas, na vila seriam três: a via-ferrata, visita ao castelo da Póva de Lanhoso, e rappel.
As actividades no Parque seriam trapézio e slide.
Entregues as pulseiras e feita distribuição dos grupos, descemos a pequena estrada que dá acesso ao castelo onde já estava o staff com o material, cintas e capacetes, para a nossa 1ª actividade.
A expectativa e ansiedade eram enormes. Sentia-me cansada da noite mal dormida, estava pouco confiante, não imaginava o que iria fazer naquele momento em que vestia a cinta e punha o capacete.
Via-ferrata.
Explicaram-nos que os ferrata têm origem na Primeira Guerra Mundial e nasceu da necessidade de colocar plataformas de armas de controlo nas fronteiras.
Não queria acreditar no que (ou)via. Íamos subir a rocha?!
Ensinaram-nos como usar o material.
Enquanto tive os pés assentes em terra, estava confiante. Percebi quão estreito era o terreno e a altura a que se encontravam os apoios dos pés. Baixa que sou, as minhas pernas não conseguiam chegar aos primeiros apoios, tive ajuda de um colega.
E complicou-se. Valeram-me a minha determinaçã, segurança, e vontade de arriscar e vencer algum medo.
Não temer, não vacilar, não olhar para trás. Ora subindo, ora caminhando, o pé esquerdo, depois o direito, mosquetão preso, mão na corda, a outra nos apoios, alguns destes mais distanciados exigiam mais concentração e equilíbrio. Uma falha poderia levar a que batesse com o corpo na pedra e caísse. Manter a distância de 3 metros em relação às pessoas à minha frente e atrás de mim.
E dizia para o colega: "Nas que me meti! Agora, L, aguenta, não podes voltar atrás". O companheiro do lado direito comentava: "Voltar atrás? Não é possível".

Cheguei ao topo da rocha, segura, emocionada, feliz e vencedora!

No Parque experimentei o slide: descer a montanha, sentir o vento, o impulso da "travagem", que loucura!

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Num dia cheio de risos, boa disposição e muita emoção, ficou para sempre inesquecível a via-ferrata.

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Cantinho da Casa

desafio de escrita dos pássaros # 2

por Maria Araújo, em 20.09.19

«Um amor e um estalo»

Quando li o título deste segundo texto, comentei para o meu decote: um amor e um estalo?
Pá, um estalo é um gesto "violento", isto é, nos dias que correm em que a violência é falada nos media e nas redes sociais, um mais forte pode deixar-nos caídos no chão!
Tendo o vocábulo outros significados, como por exemplo "estalar de riso", ou na gíria "partir a moca a rir" , lembrei-me de uma história verdadeira que me contaram há anos.
Nuno, 25 anos, moreno, estatura média, olhos e cabelo castanhos, corpo elegante, um sorriso com covinhas faziam perder a cabeça das raparigas.
Nuno amava Laura, queria casar. Ela, apaixonada, também, precisava de estabilidade, dizia que ainda não chegara a hora.
Num dia de Verão, Nuno tinha uma saída de trabalho, ligou para Laura que passava férias com a família numa das praias perto da cidade.
Laura levou-o a casa para tomar um café. Gerou-se um clima, os beijos e as carícias levaram-os para a cama.
Contudo, Laura estava sempre atenta a algum ruído externo, a coisa não estava a correr como desejara, pressentiu um movimento, parecia-lhe que alguém da família estava por perto: "Vem aí alguém!"
À pressa, Nuno vestiu as calças, ela, o vestido de praia, foram para a pequena sala que fazia de hall e, algo tensos, sentaram-se a conversar.
Mas ninguém entrara, tudo ficou calmo, o susto passara, resolveram sair de casa. Antes disso, Nuno pediu para ir à casa de banho. De repente, Laura ouve um grito. Aproximou-se, vê-o com a mão na braguilha e a gemer de dor. O fecho prendera-se na pele da sua pila.
Com jeito e calma, Laura ajudava-o a puxá-lo, ora para cima, ora para baixo, escapava-se um grito, ele pedia que fizesse devagar: " esta merda dói, caralho!", queixava-se.
Laura sentia dó dele, mas ao mesmo tempo esforçava-se por conter o riso de tão caricata cena.
Depois de várias tentativas, o fecho cedeu. Nuno suspirou de alívio. A marca vermelha na sua pele era visível. E Laura libertou a gargalhada que tanto queria.
- Nuno, onde estão os boxers?!
- Ora, Laura, os boxers ficaram em cima da cama! Com o susto nem me lembrei de os vestir. E já reparaste que tu não vestiste as cuecas, também?
E em uníssono, soou naquela casa um amoroso estalo de riso.

 

 

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Imagem daqui

Cantinho da Casa

desafio de escrita dos pássaros # 1

por Maria Araújo, em 13.09.19

Problemas, só problemas
«A carteira»

Gonçalo recebera uma resposta positiva. Era um trabalho da sua área de formação, sentia um grande alívio, acabara o desespero da procura, das inúmeras entrevistas sem sucesso.
Sentou-se na esplanada do café, tirou do bolso do casaco a carteira de pele castanha, e o maço de cigarros.
Os pensamentos fluíram para o tempo da faculdade. Os primeiros anos correram bem, não atrasara uma cadeira... até conhecer a Margarida.
Tivera uns flirtes com duas ou três raparigas de curso, nada que o deixasse morrer de amores por alguma. Mas a Margarida depressa tomou conta do seu coração.
Foram meses de loucura dos jovens apaixonados, viveram o espírito efusivo dos estudantes como se o mundo acabasse amanhã, faziam o que lhes dava na gana, correram muitos riscos até ao dia que...
Como foi possível fazermos isso?! Que atrevimento! Que risco corremos!, comentou.
- O senhor toma alguma coisa?
- Sim, por favor. Um café.
Contara a Joana a sua paixão pela Margarida, ocultara as trapaças que fizera, o dinheiro extra que pedira aos pais, eles que tinham muitos problemas económicos, prescindiam do muito que poderiam ter e poupar para proporcionarem aos dois filhos um curso. E aquele acto deixara-o envergonhado de si próprio. Ultrapassara o limite.
Estava na hora de organizar a sua vida, seguir e respeitar o que os pais sempre lhe ensinaram: a honestidade e a gratidão.
Pararam em frente à montra da loja de roupa masculina:
- Linda carteira! Vais comprá-la?
- É linda, sim. E o preço? É cara, não posso gastar dinheiro e...
- Rouba-a!
- Roubá-la?! És doida! Nunca roubei nada...
- Então! Se não tens dinheiro, rouba-a.
- Roubar é crime, Margarida!
- Vá, arrisca. Quero ver do que és capaz.
Empurrando-o para dentro da loja, descontraidamente deram uma vista de olhos à colecção, pegaram um casaco, passaram no balcão dos acessórios, levaram uma igual à da montra, dirigiram-se para o provador e, com cuidado, tiraram o alarme antirroubo. Margarida guardou-a na sua mala.
Saíram da loja, ela, firme, dava-lhe a mão, sentia as suas trémulas.
Os alarmes não dispararam.
Aceleraram o passo, saíram rapidamente do centro comercial. Quando sentiram que não havia perigo, ela abraçou-o pela coragem de ter conseguido realizar a façanha.
Olhava a carteira que durante meses lhe causara grandes problemas de consciência, e que o tempo o ajudara a esquecer.
- Que será feito da Margarida? 
Esboçou um sorriso. 
Acendeu um cigarro.

 

 

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