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Cantinho da Casa

Cantinho da Casa

# fiqueemcasa - a"minha" criança

Maria Araújo, 03.04.20

uma mãe que precisa de compras de supermercado mas tem uma criança e  ninguém que possa ficar com ela, o que faz?

Leva-a às compras?

Não!

Fica em casa da tia avó.

As crianças devem ser poupadas de andar nesses espaços.

Aqui em casa, com todo o cuidado, fiquei com ele.

Senti que ele olhava-me de outra forma. Habituado a que fosse buscá-lo à creche, agora que me vê poucas vezes, o que pensará ele?

Quando a mãe voltar ao trabalho, se voltar, e as creches estiverem fechadas, vou ter de cuidar dele.

Não há alternativa.

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"é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança"

Maria Araújo, 09.10.19

dizem, " até que essa criança tenha necessidades especiais. Esse é o limite"

No fim de semana passado, pediram-me para ver o vídeo abaixo.

Quando li o título, fiquei de coração apertado, sabia que escutaria um discurso muito, muito sensível e que nem todos os pais querem ouvir e aceitar.

Sei de pais e mães que ignoram que o seu filho seja uma criança especial.

Também conheço eles, os homens pais, que fazem tudo pelos seus filhos, que se sacrificam para lhes dar a qualidade de vida que merecem, independentemente de as suas crianças terem um síndrome,  atraso de desenvolvimento, ou simplesmente porque são apáticas, ou hiperactivas, procuram ajuda e informação para que  as terapias necessárias as preparem para o futuro, limitado ou não, e que este seja risonho e igual ao das outras crianças "normais".

Mas também sei, e conheço, eles, os homens pais, que minorizam ou ignoram as dificudades das suas crianças, saem de cena quando percebem que elas são especiais, que precisam de terapias, paciência, resiliência, atenção e muito, muito carinho.

E deixam-nas  a elas, as mulheres, sozinhas.

Há algum tempo, uma amiga minha, que vive no Brasil, contou-me que o marido de uma sua amiga a deixou quando foi diagnosticado ao filho um PEA ( Perturbação do Espectro Austista).

Sozinha, viu-se confrontada com um eterno problema, que nunca imaginaria fosse ter, entregou-se ao filho com todo o amor, procurando ajuda e as pessoas competentes para aprender a interagir com o seu filho.

Há muitas crianças com doenças raras que, desde cedo, têm as terapias necessárias para que possam crescer e desenvolver a autonomia, interagir com as outras crianças; nas creches, nos jardins de infância, mais tarde na escola. Outras há que não têm acesso a nada, por desconhecimento dos pais (ou porque estes não querem aceitar /ver que a sua criança é especial), ou por questões económicas que não lhes permitem recorrer às clínicas privadas, estas capazes de responder às necessidades das crianças e que os hospitais públicos não conseguem, por vezes, por falta de técnicos, e sobretudo porque não aproveitam a logística que têm à sua disposição, raramente usada, porque o tempo para cada criança é limitado.

É esta a solidão das mães especiais.

 

 

fui visitar a Alice

Maria Araújo, 06.05.19

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Desde Dezembro de 2017 que não visitava a Alice, a minha amiga que fez 58 anos no passado sábado. 

Como não ia passar o fim de semana  na praia, pensara visitá-la, de preferência no Domingo, contactei uma das nossas grandes amigas que confirmou que a Alice passaria o aniversário com a família.

Combinamos visitá-la no Domingo, passei em casa desta amiga, fomos à Casa de Saúde.

Pelo caminho soube que muito mudou nas visitas à Alice: antes de qualquer pessoa a visitar, liga para a Casa de Saúde, a recepcionista telefona para um membro da família que dá, ou não, (depende de quem é e se a conhece) consentimento à visita.

Ontem, assim foi.

Na recepção comunicamos a autorização da visita. Percorremos o longo corredor e, de repente, ouço a minha amiga dizer: " olha quem aqui está!". E vejo a Alice sentada, já à nossa espera.

Quando a vi, senti uma dor no coração, uma vontade enorme de chorar.

A Alice tinha o mesmo rosto, estava com bom aspecto, mas não nos reconheceu.

Reagiu à voz da minha amiga, que perguntou quem eu era, e não obtendo resposta, disse o meu nome, mas pouco ou nada saiu daquela boca.

A Alice emitia sons, ou repetia as palavras da minha amiga de forma incompleta, olhava-me mas não sorria, eu dava-lhe a mão que ela agarrava, mas largava-a de imediato.

Fomos ao café, tive de chegar o copo à boca; ela não o segura.

Seguimos para o jardim, a minha amiga falava com ela, eu também, às vezes ria-se, mas as poucas palavras eram sons, tal e qual um bebé que ainda não sabe falar.

Regressávamos ao interior do edífico, estava uma família  com três crianças sentadas num banco do jardim. Ela vê as crianças e vai na sua direcção. As palavras que diz sempre que vê crianças são: " ai, que lindas!".

Já no interior as crianças entram na cabine telefónica, ela vê-as, diz olá e que lindas, ao mesmo tempo que sai uma gargalhada com um prazer  imenso, deixou-nos feliz, também. 

Durante a hora que estivemos as três, as únicas palavras completas que saíram da sua boca foram para as crianças.

Na hora de sairmos, a minha amiga foi chamar uma funcionária que levaria a Alice para a sua " casa" ( mais um pormenor que mudou, sempre foram as visitas que a deixavam à porta da casa) ela não me ouve, foge de mim, segue as crianças que já estavam perto da saída, chegou às escadas e parou. Olhou-me. Eu disse que não era ali a sua casa, dei-lhe a mão tentando voltar para trás, já estava a funcionária junto de nós para a levar.

Quando a minha amiga lhe pediu um beijo e lhe disse que voltaríamos, ela deu.

Eu fiz o gesto para lhe dar um beijo, ela olhou-me, não ofereceu o rosto, e pedi à minha amiga que não insistisse para o dar.

As lágrimas caíam-me do rosto quando saímos. 

A noite passada dormi mal a pensar na Alice.

Voltaremos lá, brevemente.

Ela precisa de ver outras pessoas.

 

 

 

 

quando a criançada reage à provocação dos jovens

Maria Araújo, 25.01.19

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Intervalo de almoço na escola  do 1º ciclo aqui da rua.

Junto ao pátio há uma passagem que vai dar a uma rua com acesso ao centro da cidade.

Os alunos da escola secundária passam por este caminho.

Estava eu nas minha tarefas, enquanto fazia o almoço, ouvi uma voz masculina, forte, proclamava qualquer coisa e as crianças gritavam de alegria.

Fui à varanda.

Nesse caminho, três rapazes negros e duas raparigas brancas, observavam os miúdos que jogavam à bola.

 O rapaz mais alto, gritava: "Bragaaaaaaaaaaa!"

Os miúdos saltavam e gritavam: Bragaaaaaaaaaaa!

Seguia-se a voz do rapaz: Benficaaaaaaaaaa!

E os miúdos gritavam mais alto : Benficaaaaaaaaaaaa!

Depois era a vez do rapaz:

Sportiiiiiiiiiiiing!

E elas: Uhhhhhhhhh!

E eu ria-me às gargalhadas com a cena.

Voltava a voz forte: Poooooooooooorto!
E deu-se o êxtase da criançada que saltava e batia palmas: Poooooooooooooooooooooooooooooorto!

Repetiu-se a cena para cada um dos clubes, com mais vigor e alegria da pequenada.

Acabou a cena, o grupo segui o seu caminho, as crianças regressaram ao jogo de futebol.