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fui visitar a Alice

por Maria Araújo, em 06.05.19

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Desde Dezembro de 2017 que não visitava a Alice, a minha amiga que fez 58 anos no passado sábado. 

Como não ia passar o fim de semana  na praia, pensara visitá-la, de preferência no Domingo, contactei uma das nossas grandes amigas que confirmou que a Alice passaria o aniversário com a família.

Combinamos visitá-la no Domingo, passei em casa desta amiga, fomos à Casa de Saúde.

Pelo caminho soube que muito mudou nas visitas à Alice: antes de qualquer pessoa a visitar, liga para a Casa de Saúde, a recepcionista telefona para um membro da família que dá, ou não, (depende de quem é e se a conhece) consentimento à visita.

Ontem, assim foi.

Na recepção comunicamos a autorização da visita. Percorremos o longo corredor e, de repente, ouço a minha amiga dizer: " olha quem aqui está!". E vejo a Alice sentada, já à nossa espera.

Quando a vi, senti uma dor no coração, uma vontade enorme de chorar.

A Alice tinha o mesmo rosto, estava com bom aspecto, mas não nos reconheceu.

Reagiu à voz da minha amiga, que perguntou quem eu era, e não obtendo resposta, disse o meu nome, mas pouco ou nada saiu daquela boca.

A Alice emitia sons, ou repetia as palavras da minha amiga de forma incompleta, olhava-me mas não sorria, eu dava-lhe a mão que ela agarrava, mas largava-a de imediato.

Fomos ao café, tive de chegar o copo à boca; ela não o segura.

Seguimos para o jardim, a minha amiga falava com ela, eu também, às vezes ria-se, mas as poucas palavras eram sons, tal e qual um bebé que ainda não sabe falar.

Regressávamos ao interior do edífico, estava uma família  com três crianças sentadas num banco do jardim. Ela vê as crianças e vai na sua direcção. As palavras que diz sempre que vê crianças são: " ai, que lindas!".

Já no interior as crianças entram na cabine telefónica, ela vê-as, diz olá e que lindas, ao mesmo tempo que sai uma gargalhada com um prazer  imenso, deixou-nos feliz, também. 

Durante a hora que estivemos as três, as únicas palavras completas que saíram da sua boca foram para as crianças.

Na hora de sairmos, a minha amiga foi chamar uma funcionária que levaria a Alice para a sua " casa" ( mais um pormenor que mudou, sempre foram as visitas que a deixavam à porta da casa) ela não me ouve, foge de mim, segue as crianças que já estavam perto da saída, chegou às escadas e parou. Olhou-me. Eu disse que não era ali a sua casa, dei-lhe a mão tentando voltar para trás, já estava a funcionária junto de nós para a levar.

Quando a minha amiga lhe pediu um beijo e lhe disse que voltaríamos, ela deu.

Eu fiz o gesto para lhe dar um beijo, ela olhou-me, não ofereceu o rosto, e pedi à minha amiga que não insistisse para o dar.

As lágrimas caíam-me do rosto quando saímos. 

A noite passada dormi mal a pensar na Alice.

Voltaremos lá, brevemente.

Ela precisa de ver outras pessoas.

 

 

 

 

Cantinho da Casa

"Ai, que mãos tão geladas!"

por Maria Araújo, em 29.11.17

Fui visitar a minha amiga Alice.

Durante o Verão, prometera a mim mesma visitá-la, mas o calor, com o qual não me dou, fazia-me ficar em casa, adiava constantemente.

Quando abriram a porta surge ela,  rosto sorridente. Estava, hoje, nos dias normais.

Uma das nossas amigas dissera-me que um dos dias que a visitou ela estava muito abatida, nem parecia a Alice que estamos costumadas ver.

Abracei-a e dei-lhe um beijo. Perguntei-lhe quem era eu. Nenhuma das vezes que o fiz ela disse o meu nome. Hoje, era o da minha irmã que ela tinha na mente.

Descemos os corredores daquela Casa de Saúde. A minha intenção era darmos um passeio pelos jardins, apesar do frio que fazia, mas agasalhadas que estavamos, superaríamos, pensei... e mal.

Há um café  na Casa de Saúde. É hábito os familiares levarem os "doentes" para um lanche. Havia-o feito com a Alice a primeira vez que lá fui, e porque apareceram mais duas amigas juntamo-nos e lanchamos com ela.

Das outras vezes, ela dissera-me que tinha lanchado, não queria nada ( sempre que lá vou, ofereço uns chocolates ou biscoitos).  Descíamos, então, os corredores até que junto à porta do café, ela a meu lado , mete-se à minha frente para entrarmos.

Percebi que queria comer. Escolhemos uma mesa, perguntei-lhe se queria lanchar.

Nunca disse que sim. O sim dela era encolher os ombros, emitir algumas palavras inacabadas.

Eu dizia leite, sumo, bolo, ao mesmo tempo que apontava para o balcão onde se viam os sumos.

Um prato com um bolo de laranja, caseiro, em cima do balcão, destacava-se dos bolos de pastelaria menos apetitosos e convidativos.

Ela quis uma fatia de bolo e um sumo.

Enquanto a funcionária preparava o lanche, eu, de pé, tentava que ela falasse alguma coisa, até que  afago-lhe o rosto e : " Ai, que mãos tão geladas!". Foi a única frase completa que saiu da sua boca.

Veio o lanche. Ia comendo de uma forma que me pareceu inquieta. Partia pedaços grandes da fatia de bolo, mãos um pouco trémulas,  metia-o à boca, comia sem proferir uma palavra. Deixei-a comer sossegada.

Pegava no pacote de sumo, que segurava mal, percebi que tinha alguma dificuldade em levar a palheta à boca. Perguntei-lhe se queira um copo, dizia que não. De repente, ela agita o pacote e percebe que ainda tem sumo, mas não consegue sorvê-lo. Delicadamente, tirei-o da mão e reparei que com as trémulas mãos tirara a palheta e metera-a ao contrário: a parte mais comprida fora do pacote. Pus direita. Bebeu o sumo todo.

Pensei para os meus botões " Será que também tem Parkinson?"

De quando em vez, perguntava quais as actividades que fazia. Se pintava,  se desenhava.  Vendo as suas unhas pintadas, perguntei se fora ela que as pintara. Ou dizia que não, ou não conseguia completar as frases.

Às tantas, aponta para a minha camisola, com um tira em malha na gola, perguntei se gostava dela e se era bonita.

Respondeu que sim.  E comento eu de imediato: " Eu também sou bonita".

Em uníssono, saiu-nos uma gargalhada. Fez-me bem esta sua gargalhada.

Decide levantar-se. Estava a parecer-me de novo inquieta.

Fomos até ao jardim. O vento era muito frio. Subimos os fechos dos nossos casacos.

Ela não estava a aguená-lo, tosse um pouco e diz " Tenho tosse!" Está frio".

Fomos  para o corredor onde fica a sala dela, sentámo-nos a ver e ouvir as senhoras  que por lá andam, também.

A funcionária veio ter connosco, entreguei-lho os biscoitos . E soube que a Alice lanchara antes de eu chegar.
"Lanchou duas vezes", comenta a funcionária. E pergunta-lhe: 

" Esta senhora é irmã?"

A Alice olhou para mim. Não soube responder.

Respondi que era  uma amiga. 

Ela repetiu a palavra "amiga" e quando a funcionária lhe perguntou o meu nome, voltou a olhar-me e disse o nome da minha irmã.

Ela vai dizendo alguns nomes das amigas ou família que se lembra no momento, nada mais que isto.

A funcionária comentou que a minha amiga é muito educada, limpa, boa pessoa. Por vezes anda deprimida, vai-se abaixo, não consegue comunicar com as outras pessoas. Assusta-se com tudo e tem medo.

A grande amiga da Alice, mais que uma irmã de sangue, telefonou para a Casa de Saúde a pedir que, amanhã, a vistam bem porque vai buscá-la para sair.

Além da família, esta amiga é a única pessoa que tem autorização para levar a Alice a almoçar ou passear.

17horas, despedi-me. Ela ria-se.

E prometi voltar dentro de 15 dias.

 

Cantinho da Casa

um lanche nos jardins

por Maria Araújo, em 02.04.17

No dia dez de Março,  escrevi neste post isto:

"Despedimo-nos com a minha promessa que vou reunir o grupo de amigas e fazermos uma visita e um lanche nos jardins da casa de saúde."

Atempadamente, contactei algumas das amigas mais chegadas da Alice. Falei-lhes na ideia  que tive de visitarmos a Alice, e fazermos um lanche, no dia que melhor lhes conviesse.

Uma delas, precisava dos fins de semana de Março, andava em mudança de casa, sugeriu o dia 2 de Abril.

Há cerca de dez dias, os contactos voltaram, ficou então confirmado hoje visitarmos a nossa amiga. Combinamos o que cada uma levaria.

Encontramo-nos na Casa de Saúde por volta das 16:10h.

Entrei na recepção, vejo uma delas sentada no sofá. Em frente, estava a Alice rodeada pela família. Dos jardins entram na recepção duas das nossas amigas que chegaram mais cedo, foram à procura da Alice mas desencontraram-se.

A Alice ficou feliz quando nos viu.

Quando a família percebeu que íamos fazer um lanche, super feliz connosco, disseram-lhe: " Vá, vai lanchar com as tuas amigas".

A Alice despediu-se da família. Aproximou-se da mãe e diz-lhe " Mãe, não vais chorar".

Ficamos todas estupefactas com as suas palavras.

Seguimos na direcção do jardim, fomos para uma zona com bancos.

Decidira levar uma toalha bordada pela minha mãe, que seria a mais adequada ao lanche no jardim. Há muitos anos que tenho essa toalha guardada. Não a uso porque tem uns pequenos buracos. A renda original estava rasgada e um dia, não sei há quantos anos, cortei-a e fiz uma igual.

A renda está impecável, a toalha nem por isso, mas adorei levá-la. 

As amigas comentaram: " Trouxeste toalha? Só mesmo tu!"

Croissants, doces miniatura, morangos e sumos de pacote, foi o nosso lanche.

As doentes que por ali andavam, também foram convidadas a escolher o que quisessem.

Gostei do gesto delas: escolheram os doces, agradeceram, e deixaram-nos a conviver.

Uma hora em saudável convívio. A Alice está sorridente, está bem, mas não consegue  acompanhar as nossas conversas.

Faltam-lhe as palavras quando quer dizer alguma coisa.

Há um pormenor que a minha irmã detectou: a Alice sorri como uma criança e quando vê crianças com os pais que vão visitar os familiares, ela aproxima-se delas, fala com elas.

A visita acaba às 17h. Fomos levá-la à sala por volta das 17h20.

A funcionária que estava de serviço, uma jovem negra, bonita e sorridente,abriu a porta. E falava da Alice. Pelo que me pareceu a Alice não causa nenhum problema. Maquilha-se, arranja o cabelo, convive com todas.

Entregamos tudo o que sobrou do lanche para ela partilhar com as colegas.

Para os tempos ivres, uma das nossas amigas ofereceu-lhe um estojo com lápis de cor e desenhos para ela pintar. Eu ofereci-lhe um saco com chocolates miniaturas.

A Alice faz anos em Maio. Pensamos levá-la a almoçar connosco.

Temos de saber se  autorizam.

Espero que sim.

Depois da visita, fomos tomar um café, conversar um pouco. Há muito que não estavamos juntas.

Despedimo-nos com uma grande vontade de sairmos mais vezes.

Cumpri a promessa.

Em breve, voltarei à Alice.

 

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Cantinho da Casa

Fui visitar a Alice

por Maria Araújo, em 10.03.17

Dois meses e meio depois de visitar a Alice, hoje, voltei à Casa de Saúde.

Quando entrei no corredor onde fica a sala da Alice, estavam várias pessoas sentadas num banco, não vi quem eram, dirigi-me à porta quando ouvi uma voz atrás de mim que me chamava.

Olhei para trás e estava ela, sentada nesse banco, com mais duas senhoras.

Fiquei super feliz porque ela viu-me e lembrou-se do meu nome. Da primeira vez ela reconheceu-me mas não conseguiu dizê-lo. 

Uma das senhoras perguntou-lhe quem eu era. Respondeu que era uma prima.

Não me manifestei. Uns minutos mais, a senhora aproveitou  para despedir-se. E foi convicta que eu era prima da Alice.

Fomos dar uma volta pelo pátio.

Muitas famílias visitavam as raparigas e mulheres internadas. A Alice está lá há cinco meses.

Desde que cheguei até me despedir dela, nunca esqueceu o meu nome.

Mas ela não consegue lembrar-se das amigas que a vão visitar e quando vai contar alguma coisa, diz: " já não me lembro".

No nosso passeio pelos jardins, aproximou-se uma senhora. Baixa, curvada, aparentava uns 70 anos.

Abraçou a Alice.

E dizia que gostava muito dela. Abraçava-a e beijava.

E a Alice retribuia-lhe o carinho.

Às tantas, a senhora conta que costuma limpar o chão, sua tarefa diária.

Ao que parece, há umas quantas senhoras internas que fazem limpeza. Recebem um valor em dinheiro ( penso que deve ser uma pequena  retribuição para os pequenos prazeres delas) . 

Queixava-se, então, que não lhe pagaram o serviço. Pagaram às colegas e ela foi fechada numa sala onde lhe foi dito que lhe davam comida, não recebia dinheiro.  E queixava-se que era injusto trabalhar e não lhe pagarem. E que trabalha muito.

Perguntei-lhe o nome.

Alice, também.

E abraçava a minha amiga Alice e dizia: " Eu sou Alice e gosto muito desta Alice".

Depois perguntou-me o nome. Disse que gostava muito da Alice e se eu sou amiga da Alice, também gosta muito de mim.

Decidi pagar-lhes o lanche.

A minha amiga não quis, tinha lanchado com a amiga que a visitara.

A outra Alice disse que não podia ir ao bar, não tinha autorização de lanchar lá.

Perguntei porquê.

É interna desde os 15 anos. Tem agora 60. E estava ansiosa por sair dali. A família deixara-a lá e nunca mais quis saber dela. Não me soube dizer de onde é. Mas que é de muito onge.

Não fiz mais perguntas.

Dizem-me elas para lancharmos no café.

"Café?!" perguntei.

"Sim", responderam as duas.

Seguia-as.

Depois de passarmos a porta que dá acesso a um longo corredor, percebi logo o que era o café.

Duas máquinas, uma de café, outra de chocolates e sandes, era o café de todas as internas.

Ali ninguém controla nada. A outra Alice pode ter o que quiser, desde que tenha dinheiro.

Pedi que escolhesse o que quisesse.

Escolheu um pacote de cookies.

Meti a moeda de 1 euro. O pacote ficou preso.

Umas simpáticas funcionárias passavam perto, comentaram que com um empurrão aquilo caía. E  empurraram à máquina, mas o pacote não cedeu. Teria que pedir na recepção a devolução do dinheiro.

Disse à minha amiga para escolher alguma coisa.

Não queria. Aliás, ela nunca quer nada. 

Sempre foi uma rapariga de trabalho, honesta, humilde, divertida, a Alice.

Introduzo uma moeda de 1 euro e  carrego nas teclas com o mesmo número do pedido da outra Alice. Talvez o pacote preso caísse.

"Que bom", disseram elas. Caíram os dois pacotes.

Um pacote  para cada uma, a outra Alice agradeceu-me, deu-me um beijo e um abraço. Repetiu: " Gosto muito da Alice. Gosto muito de si " e seguiu por onde entraramos.

Eu e a minha amiga fomos corredor fora. Voltamos ao jardim.

A Alice vê a Ana, uma jovem nos 20, que estava com os pais.

Foi ter com ela.

Aproximei-me sem dizer nada. Ela olhava, desconfiada, para mim. E para a Alice, que lhe fazia festas no rosto.

De repente, a mãe fala do cabelo da Ana, que é bonito e muito comprido. Quando a senhora vai à carteira e tira o passe da filha que se via o cabelo mais curto, a Ana levantou-se e diz para a mãe: " Que nojo. Estás a ver porque não queria que guardasses as minhas coisa? Que nojo".

Afastou-se e foi sentar-se na relva de um dos canteiros.

Os pais foram ter com ela.

A Alice diz-me que é melhor irmos embora e seguimos na direcção da sala.

Despedimo-nos com a minha promessa que vou reunir o grupo de amigas e fazermos uma visita e um lanche nos jardins da casa de saúde.

Saí de lá com o coração apertado. Uma mulher cheia de vida, com Alzheimer, parece-me impossível.

Não sei se a Alice virá a sair de lá.

 

 

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