Conheci-te há mais de 40 anos no melhor cabeleireiro desta cidade, um formador de muitos futuros profissionais que foram e são.
Abriste o teu salão no centro histórico.
Sempre deste tudo pela camisola que vestias.
E tinhas uma equipa sempre disposta a seguir-te.
Naquela altura, ninguém se tratava por tu. A não ser as amigas.
Comecei a ir ao teu salão de cabeleireiro no início dos anos 90.
A nossa amizade não começou no teu espaço.
Em 1994, quando a tua amiga, minha colega de trabalho, perguntou-me, a meio do ano escolar, se ajudava a tua filha numa disciplina, era ela que trazia a miúda cá a casa no final do dia.
Nessa altura, não sabia que a minha colega era tua amiga.
Nunca nos cruzamos no salão.
Uma noite, combinaste com a tua amiga passar em minha casa.
Querias falar comigo.
A surpresa foi grande quando vi quem era a mãe da miúda.
A partir dessa altura, começou a nossa amizade: tu, a tua amiga, e eu.
Mas foi no início deste século que fomos de férias de verão para fora do país: eu, tu, a tua amiga, a tua filha.
Desde então, e porque havia cumplicidade entre nós, tratavas-me por tu.
E fazias questão que eu fizesse o mesmo.
Mas nunca tive a coragem de te tratar por tu.
E porquê?
Porque eras a minha cabeleireira, não conseguia mudar a minha forma de tratar.
Poucos anos depois, a tua amiga, e minha ex-colega, afastou-se.
Entretanto, um novo projecto levou-te a passar o cabeleireiro.
Continuamos as duas com a nossa amizade cúmplice.
Saíamos muitas vezes para jantar.
A tua filha cresceu.
Tinha namorado, não se juntava a nós.
Nem tu querias.
Nas tardes de verão, ao domingo, convidavas-me para ir à tua casa "de campo".
Que belos momentos passamos!
Eu, tu, a tua filha e o namorado, agora marido.
As brincadeiras na piscina, os lanches, os simples jantares que tivemos no alpendre da casa, com o sol, lá longe no horizonte, a pôr-se por trás das montanhas.
Regressávamos às nossas casas, já noite, felizes com muita brincadeira na piscina da tua casa.
E com a alma cheia de momentos tranquilos de final de dia.
Não quero eternizar aqui o que vivemos.
Fica tudo guardado no meu coração.
Uma mulher empreendedora como tu, foste mais longe .
Novos desafios que te deram muito trabalho.
E tiveste sempre as melhores funcionárias que vestiram a tua camisola e que te ajudaram no sucesso do teu negócio que é de uma sensibilidade única
Continuamos com as nossas saídas, sempre que era possível, e porque tinhas muitas amigas, tinhas de gerir o convívio, e também a tua vida familiar.
Há mais de quatro anos que não saíamos para jantar.
Passava no teu gabinete, dava-te um beijo, dizíamos " temos de combinar um jantar".
E o tempo passava e o jantar não acontecia.
Nasceram as netinhas.
Quanto felicidade por teres uma filha única que te deu duas netas!
Percebeste que o teu negócio estava em boas mãos, passaste a trabalhar em part-time.
Ajudaste a tua filha.
Nas férias do ano passado, enviei-te uma mensagem para combinarmos, finalmente, jantar.
Regressavas, no dia seguinte, de uma semana que passaste com a tua família.
O tempo passava, não combinavamos nada.
Até que enviei nova mensagem.
Estavas internada no hospital.
Soube que não querias ver ninguém
Daqui para a frente, ia tendo algumas notícias, boas, de ti.
Em janeiro enviei mensagem.
Ligaste-me.
Fiquei muito feliz quando te ouvi.
E combinamos tomar um café.
Contaste-me como aconteceu o grave problema da maldita doença.
Sabíamos que não viverias muito tempo.
Não te caiu uma lágrima.
Foi uma conversa de esperança .
No finald da tarde, fomos buscar a tua neta ao colégio.
E fizeste questão que não vos levasse a casa.
Querias ir a pé com a menina.
Tinhas necessidade de andar.
Os dias passavam.
Viajaste com a tua família, no Carnaval.
Passaste o teu aniversário fora do país, sempre com a tua família.
Regressaste, e foste viajar com umas amigas.
Quando nos encontramos, no início de junho, estavas com bom ar.
Comemos um gelado no Bom Jesus.
Veio o calor insuportável.
Enviei-te uma mensagem a dizer que logo que o tempo ficasse mais fresco, voltaríamos ao Bom Jesus para comermos o gelado.
Respondeste-me que gostarias, mas estavas internada.
Perguntei se querias que fosse visitar-te.
Não respondeste.
Na sexta-feira, dia 11, no final do dia, o telemóvel tocou.
Vi o teu nome.
Atendi de imediato.
Mas não ouvi a tua voz.
Poucos segundos passaram, escuto a voz da tua Cris: " a minha mãe apagou-se".
Sei que gostas (vas) da Mariza.
Escolhi a música "O Melhor de Mim" para deixar aqui registado o Melhor de Ti.
Como excelente profissional que foste, só mesmo as queridas pessoas que cuidaste com muito carinho para deixarem os seus testemunhos da pessoa humana que "és".
Hoje, vou estar presente no teu funeral.
Não para me despedir de ti.
Mas para te dizer que foste muito importante na minha vida.
E sei que também fui na tua.
Encontrar-nos-emos um dia.
Até sempre, Amiga.
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