Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




e pensei, "que nojo!"

por Maria Araújo, em 28.03.16

Na madrugada que mudamos para a hora de verão, adormeci, como sempre, no sofá.

Quando fui para a cama eram três horas, tinha somente seis horas para dormir, já que no domingo de Páscoa o compasso ( em Braga ainda há esta tradição, embora muitas pessoas desta rua não abram a porta à cruz) passa entre as nove e meia e as dez horas, não me lembro se sonhei ou se pensei quando acordei, o nojo que tenho de beijar o crucifixo depois de este passar por muitas bocas, que muitas destas nunca sentem a escova de dentes; da saliva que se acumula no canto da boca; ou do beijo molhado que fica na imagem crucificada de Jesus Cristo, e que a igreja não providencie um imaculado lenço  para que o mordomo passe pelo corpo de Jesus e limpe as marcas dos beijos deixados.

Em tempos idos,  vinha um padre, agora, na minha zona, é o sacristão e as senhoras que o acompanham no compasso. Neste "sonho" recordei o número de apartamentos que há neste prédio e quem poderia abrir a porta à cruz. Foi então que a madame do baton vermelho apareceu-me à frente dos meus olhos: "Quê?! Que nojo! Vou beijar o crucifixo com as marcas da gaja do baton vermelho? Nem pensar!"

De repente, lembrei-me que os elementos do compasso começam a visita às casas pelos andares superiores. "Que alívio!", pensei.

A cruz passou pouco depois das nove e meia, os elementos eram os mesmos do ano passado, lê-se a oração, o senhor benze a casa e deixei-me ficar à espera que fossem embora, até que a senhora que trazia o crucifixo me diz para beijar o Senhor. 

Esquecera-me de O beijar. E, ao mesmo tempo, hesitei porque estava à espera de ver um lencinho branco que passasse pelo imagem. Como este gesto faço-o uma vez por ano, tentei esquecer os outros beijos e depositei o meu nas pernas do Senhor.

Nem sequer me lembrei do sonho que tivera, a dormir? acordada?, não fosse este post  e os seus comentários:

 

mula.png

 

 

 

 

 

Início

Autoria e outros dados (tags, etc)


15 comentários

Imagem de perfil

De Kok a 30.03.2016 às 16:06

Nunca fui seguidor dessas tradições que, de algum modo, configuram uma subserviência.
Neste caso à igreja e à figura do padre a quem é devida obediência. Mas passados séculos que ainda se mantenham... e que ainda haja quem defenda e apoie tais práticas...
Sei que a fé e as crenças religiosas podem (e devem) ter lugar para os que nelas se revêm.
Porém, quem assim não pensa não deve ser "apontado" por todos os outros. Porque nem sempre "os outros" têm razão.
Beijos abençoados com sorrisos
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 30.03.2016 às 18:07


Eu abro a porta à cruz, porque a minha falecida mãe fazia questão e como vivo na casa que era dela e do meu pai, decidi, desde então, que na Páscoa este ritual continuaria enquanto eu aqui vivesse (entretanto comprei a casa) mais por ela.
Mas o ritual de beijar a o Senhor é que não aprecio.
Aliás, sou "semi católica" porque não sou fanática por igreja, padre, religião. Mas tenho fé,
Imagem de perfil

De Miguel Alexandre Pereira a 29.03.2016 às 22:57

sinceramente eu não era capaz de fazer uma coisa dessas XD

http://ummarderecordacoes.blogs.sapo.pt/
Sem imagem de perfil

De Pedro Coimbra a 29.03.2016 às 05:13

Nem sei se os meus pais ainda mantêm essa tradição.
Em Macau não existe.
Boa semana
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 29.03.2016 às 11:58

Olá, Pedro.
Aqui em Portugal, só nas cidades do norte, penso eu, existe o compasso. Se for ao Porto, não há.
Mas ainda há muita tradição nas vilas e aldeias deste país.
Gosto de ver o compasso, gosto desta festa que é muito diferente do Natal, mas a cruz não devia ser dada a beijar.
Ou beijaria quem quisesse.
Boa semana para si, também.
Imagem de perfil

De Mula a 29.03.2016 às 02:08

Ahahahahah é realmente uma imagem terrível de uma coisa que até foi pensada - dizem - para ser bonita. A verdade é que há dois anos descobri um truque: é fazer a coisa muito rápida e fazer de conta que se beija, mas os lábios lá não tocam... Quem lá toca é a ponta do nariz. Dirão as más línguas que sou nariguda, mas antes nariguda e saudável, do que beijar o menino Jesus e ser dias mais tarde internada com uma tuberculose ou alguma "patite", como dizia a outra...

Há tradições que deviam de terminar... Esta é uma delas. Recebia-se só o compasso só para dizer olá, bebiam e comiam o normal, e depois iam pregar para outra freguesia, sem beijos nem beijinhos...
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 29.03.2016 às 12:01

Antes de ler este comentário, li o do Pedro Coimbra, e disse exactamente isso: o compasso e a cruz visitam as nossas casas mas não davam a beijá-la, ou beijaria quem quisesse.
Quanto a tocá-la com o nariz, nem me lembro disso, porque sei quem o faça, também.
Uma boa semana, Mula.
Imagem de perfil

De Mula a 29.03.2016 às 13:56

É o que nos obrigam a fazer... :|
Boa semana também!
Imagem de perfil

De golimix a 28.03.2016 às 20:10

Bem... quando eu recebia o compasso, juntamente com os meus pais, e na casa deles, há muitos anos atrás, não beijava diretamente a cruz! DEUS ME LIVRE!!!! E andava um sacristão a "fazer que limpava" os beijos molhados do resto da malta. Se o lenço viesse acompanhado por álcool ou lixívia eu ainda pensava duas vezes!! Assim, "era a tipa nojocas" que beijava a mão e a depositava nos pés da imagem gelada de um Cristo de metal.
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 28.03.2016 às 20:20

Ahahahahaha! Lixívia!
Álcool, sim.
Beijar a nossa mão e passar pela imagem, seria o ideal.

Imagem de perfil

De Fatia Mor a 28.03.2016 às 19:56

Quando passava férias com o meu pai, em Braa, recebíamos o compasso em casa. Quando o padre chegava a Cones já ia meio torto do vinho do Porto e eu esquivava-me sempre ao beija cruz por achar que era um nojo!! Normalmente ia servir mais um cálice ao senhor padre e pronto... Estava livre!!
Imagem de perfil

De Maria Araújo a 28.03.2016 às 20:18

Uma boa estratégia, servir um Porto ao padre, mas porque era da parte de tarde.
Aqui em casa, quando o compasso passava de tarde, uma seca, diga-se, o padre fazia o mesmo que faz agora. Benzia e ia embora.
O meu pai punha-se a léguas, mal a cruz saía de casa.
A minha falecida mãe, mulher crente mas não fanática, gostava de receber a cruz pelo que, quando faleceu, prometi a mim mesma que, estivesse eu por casa, abriria sempre a porta.
Faço-o em sua memória.

Comentar post



foto do autor



o meu instagram


1º desafio de leitura - 2015 2º desafio de leitura - 2017 3º desafio de leitura - 2019

desafio


10 anos




Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D


Encontros - eu fui

IMG_2230 (2).JPG MARCADOR