Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

cantinho da casa

cantinho da casa

as carpideiras

Balneário do ginásio, três senhoras já prontas para sair, falavam das carpideiras.

Uma delas contava  que estas mulheres iam às igrejas chorar o morto, que não conheciam.

Ora numa altura, foram a um velório sem que fossem "contratadas" , chorar o homem da aldeia.

A esposa, sentada a um canto, não falava, não chorava.

Aproximaram-se, iniciaram a choradeira do costume:
"Ai coitadinho, tão boa pessoa, ai, ai".

A viúva, não dizia nada, até que uma delas perguntou-lhe porque não chorava, ao que respondeu: " Já devia ter morrido há muito tempo".

A choradeira, o pranto das outras continuava. A viúva, no seu canto, não mostrava sinal de dor, de desgosto pela morte do marido.

Voltou a ser interrogada até que diz: " Este homem já devia ter ido embora há muito tempo. Batia-me, maltratava-me, como posso eu chorar um homem que me fazia tão mal?"

Ora esta conversa trouxe-me à recordação as idas, algumas obrigatórias, aos funerais de pessoas amigas dos meus pais.

Na altura, não sabia que essas mulheres  não pertenciam à família do morto nem sequer que eram pagas para esse teatro. Destestava ouvir berros e choros disfarçados. Sempre me incomodaram. Como nunca gostei de ir a funerais. Dispenso. E se puder, fujo deles. 

Felizmente nunca mais presenciei estas cenas. E se alguma vez, num velório, me lembrei delas, com certeza que pensei que já não existiam.

Fui à procura de informação, encontrei este precioso site com documentários, filmes e livros do etnomusicólogo, que os mais velhos devem lembrar-se, ( não me lembrava de nada) era um programa da RTP, "O Povo que Canta" de  MICHEL GIACOMETTI.

 

«Choram-se» os seus próprios mortos ou manda-se «chorar» uma carpideira, que fará o serviço em troca de um alqueire de trigo ou coisa parecida.

 

"Choraste mulher, choraste...e recebeste o salário das tuas lágrimas...
Agora foges por entre os Espigueiros que guardam o pouco daqueles que tão pouco tem..."

O vídeo do youtube, no programa "Povo que canta" o choro de uma carpideira..

 

 

8 comentários

  • Imagem de perfil

    Maria Araújo 08.06.2017 10:49

    Obrigada, Robinson.
    Sabe que o nome Michel Giacometti dizia-me alguma coisa?
    Quando li o documentário, e que vou ler melhor, já que este texto foi feito à noite, e vi o nome do programa, de facto o título levou-me atrás no tempo, mas na altura, certamente, não o acompanhei na totalidade.
    Há muito a ver e fiquei satisfeita com a pesquisa que fiz.
    Quanto às carpideiras, lembro-me dos gritos e choradeiras, que odiava, de verdade, mas na altura não sabia que eram pagas para isso.
    Era jovem, queria eu lá saber disso? Ahahahah!
  • Sem imagem de perfil

    Robinson Kanes 08.06.2017 13:36

    É natural :-)

    Olhe que existe um contributo deste senhor espalhado por alguns museus deste país, pode ser um bom começo :-)

    Já não soube o que eram as carpideiras, mas era algo muito revestido de um certo ritual da morte, quase que obrigatório :-)
  • Imagem de perfil

    Maria Araújo 08.06.2017 15:53

    Hei-de procurar se há alguma referência a este senhor, aqui pela cidade.
    Esse ritual de morte fazia parte da cultura de algumas aldeias do norte.
    Sabe que me lembrei que "as carpideiras" dos tempos modernos são, agora, os pagadores de promessas.
  • Sem imagem de perfil

    Robinson Kanes 08.06.2017 17:54

    Sim, só que as carpideiras eram mais baratas .-)
  • Imagem de perfil

    Maria Araújo 08.06.2017 20:00

    Pois!
    O povo é fino, faz promessas que não pode, prefere pagar a quem caminha por eles os longos quilómetros, logo tem de custar caro, e é mais discreto.
    Já imaginou o Robinson, jovem que é, fazer uma promessa por mim, ganha 2500 euros, não precisa de vir a Braga, faz o percurso a partir do lugar onde vive (mas tem de completar os quilómetros que leva de Braga a Fátima), fazia exercício, aumentava a massa muscular, ficava com o corpinho nos trinques e o dinheirinho no bolso.
    Eu exigiria o percurso via telemóvel, não fosse fazer batota.
    Ou então teria de fazer ida e volta, para que a promessa ficasse cumprida.
    Ah! Mas tinha de rezar o terço. Tudo incluído.
    Cumprimentos.
  • Sem imagem de perfil

    Robinson Kanes 09.06.2017 09:14

    Não sou a pessoa mais religiosa do mundo mas… Não me parece que Deus pudesse ficar mais contente se alguém pagasse a outrem (e não é pouco) para cumprir uma…

    Tenho de rever a minha carreira profissional :-)
  • Imagem de perfil

    Maria Araújo 09.06.2017 12:52

    Faço minhas as suas palavras, mas acho que deve MESMO, rever a sua carreira
    profissional, eheh!
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.