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Eça de Queiroz

por Maria Araújo, em 04.01.09

Ao responder ao desafio da Si, e depois de postar  o conteúdo da 5ª linha da página 161, de " A catástrofe" em Contos, de Eça de Queiroz,  fui ler o conto na íntegra. Algumas das passagens fizeram-me reflectir sobre o que se passou na época e o que se passa actualmente aqui em Portugal.

Sublinho as semelhanças escritas com a actualidade.

 

"Mas de que vale agora pensar no que se podia ter feito!.. O nosso grande mal foi o abatimento, a inércia em que tinham caído as almas! Houve ainda algum tempo em que se atribuiu todo o mal ao Governo! Acusação grotesca que ninguém hoje ousaria repetir.
Os Governos! Podiam ter criado, é certo, mais artilharia, mais ambulâncias; mas o que eles não podiam criar era uma alma enérgica ao País! Tínhamos caído numa indiferença, num cepticismo imbecil, num desdém de toda a ideia, numa repugnância de todo o esforço, numa anulação de toda a vontade... Estávamos caquécticos! O Governo, a Constituição, a própria Carta tão escarnecida, dera-nos tudo o que nos podia dar: uma liberdade ampla. Era ao abrigo dessa liberdade que a Pátria, a massa dos portugueses tinha o dever de tornar o seu País próspero, vivo, forte, digno da independência. O Governo! O País esperava dele aquilo que devia tirar de si mesmo, pedindo ao Governo que fizesse tudo o que lhe competia a ele mesmo fazer!... Queria que o Governo lhe arroteasse as terras, que o Governo criasse a sua indústria, que o Governo escrevesse os seus livros, que o Governo alimentasse os seus filhos, que o Governo erguesse os seus edifícios, que o Governo lhe desse a ideia do seu Deus!
Sempre o Governo! O Governo devia ser o agricultor, o industrial, o comerciante, o filósofo, o sacerdote, o pintor, o arquitecto – tudo! Quando um país abdica assim nas mãos dum governo toda a sua iniciativa, e cruza os braços esperando que a civilização lhe cai feita das secretarias, como a luz lhe vem do Sol, esse país está mal: as almas perdem o vigor, os braços perdem o hábito do trabalho, a consciência perde a regra, o cérebro perde a acção. E como o governo lá está para fazer tudo – o país estira-se ao sol e acomoda-se para dormir. Mas, quando acorda – é como nós acordámos com uma sentinela estrangeira à porta do Arsenal."

 

 

 

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6 comentários

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De Carapaucarapau a 05.01.2009 às 19:25

Não será por acaso que me encontro mais ou menos rodeado por todos os lados pelo Eça (pela sua obra, já se vê...). Ainda agora pelo Natal me apareceram mais uns 8 cm de lombada dos dois volumes da sua (dele) correspondência. É ponto geralmente aceite por todo, que o Eça é o nosso maior romancista e o que melhor nos retratou. Eu agora até arranjei uma teoria sobre ele. Creio que ele é o culpado de tudo o que nos acontece, desde o que fazemos mal aquilo que não fazemos. Creio que fazemos tudo para que os escritos do Eça nos assentem sempre como uma luva para assim não ficarem desactualizados. Surgiu-me agora uma dúvida. A culpa será (foi) do Eça ou dos editores que não querem perder a mina? Bem, pensando melhor, o culpado foi de facto o Eça. Sem ele nem os editores existiriam. Malvado do homem que nos tramou a vida...
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De Maria Araújo a 05.01.2009 às 22:14

Mas ele até tinha uma certa razão, penso eu!
Não sou nada a favor das demagogias deste governo, mas também é certo que tudo ficou por fazer, teve culpa no País (povo).
Acomodaram-se a (flalo mais na terra) e depois dizem que o governo não apoiou nem apoia.
Estive a ouvir o nosso 1º falar agora na SIC. Se tinha que pôr o país na ordem , tudo bem, mas será que ele não vê quem está do seu lado?
Quem muito lucra desta pobre cambada que dá ao corpo e paga toda a factura?
Sabes que mais? Acho que já nem sei o que estou a dizer. Nem percebo nada de economia/política.
Deixo para ti este meu pensar, porque tu endentes da coisa.
Beijinho
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De Tretoso_Mor a 04.01.2009 às 22:14

Cntinho da Casa,

O Eça era um visionário, em primeiro lugar. Repara que ele falava já na iniciativa privada, como o centro da economia. Os motivos porque o invocava, eram os mesmos que sicedem actualmente.

O Eça era também um crítico mordaz e bem humorado sobre a sociedade e a política da época.

É uma referência.

Tretices grandes para ti
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De Maria Araújo a 05.01.2009 às 11:39

Sim, mordaz, e humorado e um grande homem das letras.
Este excerto que escrevi foi mais uma reflexão do que sinto que aconteceu pós 25 de Abril, com a nossa agricultura, principalmente.
Precisamos de investir no nosso país.
Está num cantinho à beira-mar plantado, com tantas possibilidades, e estraga-se tudo com os interesses, nomeadamente os imobiliários (acredita que eu não sei nada de nada destas coisas, mas estão á vista).
Um beijinho
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De swt a 04.01.2009 às 10:14

Cantinho da Casa, as letras são muito pequeninas...!
Lê.se mal.
Mas, também, tenho dado comigo a pensar no valor da escrita , personalidade e obra de Eça de Queirós. Que belo filme dariam muitas das suas obras. Fez-se alguma coisa já, mas, neste mundo de corre, corre, muito anda esquecido e posto num canto. Muitos do nossos amigos Europeus "são mais antiquados" e os seus valores estão sempre presentes!
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De Maria Araújo a 04.01.2009 às 16:47

Olá.
Eu postei este pequeno excerto do Eça de Queiroz, a propósito do País e do Governo.
Apesar de sentir que o Governo pressiona-nos com cortes, poupanças, contenções, também é verdade que o País acomodou-se aos subsídios da UE, ao crédito para tudo ,e houve um certo despoletar, nos anos 80 e 90 de um novo riquismo que se aproveitou desses subsídios e não o aplicou em prol do desenvolvimento do país. O governo distribui mal o dinheiro.
Esta passagem de Eça, fez-me reflectir um pouco na situação que vivemos a nível da economia e da política.
Não sei se estou certa, mas que este escritor é actualíssimo , é!
Beijinho

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