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Cantinho da Casa

Cantinho da Casa

787 - Pobreza versus riqueza

Maria Araújo, 15.10.10

Este texto já é conhecido. Voltei a recebê-lo por e-mail, e decidi editá-lo.Uma lição de vida para todos nós. E porque no próximo dia 16 é o Dia Mundial da Alimentação...

 

 

 

O miúdo do restaurante !

 

  
 
Entrei apressado e com muita fome no restaurante. Escolhi uma mesa
bem afastada do movimento, porque queria aproveitar os poucos minutos
que dispunha naquele dia, para comer e acertar alguns bugs de
programação num sistema que estava a desenvolver, além de planear a minha viagem
de férias, coisa que há tempos que não sei o que são.

 

Pedi um filete de salmão com alcaparras em manteiga, uma salada e
um sumo de laranja, afinal de contas fome é fome, mas regime é regime não é?

 

Abri o meu portátil e apanhei um susto com aquela voz baixinha,atrás de mim:

 

- Senhor, não tem umas moedinhas?

 

- Não tenho, menino.

 

- Só uma moedinha para comprar um pão.

 

- Está bem, eu compro um.

 

Para variar, a minha caixa de entrada está cheia de e-mail.

Fico distraído a ver poesias, as formatações lindas, rindo com as piadas malucas.

Ah! Essa música leva-me até Londres e às boas lembranças de tempos áureos.

 

- Senhor, peça para colocar margarina e queijo.

 

Percebo nessa altura que o menino tinha ficado ali.

 

- Ok. Vou pedir, mas depois deixas-me trabalhar, estou muito ocupado, está bem?

 

Chega a minha refeição e com ela o meu mal-estar. Faço o pedido do
menino, e o empregado pergunta-me se quero que mande o menino ir embora.

O peso na consciência, impedem-me de o dizer.

Digo que está tudo bem. Deixe-o ficar. Que traga o pão e, mais uma
refeição decente para ele.

 

Então sentou-se à minha frente e perguntou:

 

- Senhor o que está fazer?

 

- Estou a ler uns e-mail.

 

- O que são e-mail?

 

- São mensagens electrónicas mandadas por pessoas via Internet
(sabia que ele não ia entender nada, mas, a título de livrar-me de questionários desses):

 

- É como se fosse uma carta, só que via Internet.

 

- Senhor você tem Internet?

 

- Tenho sim, essencial no mundo de hoje.

 

- O que é Internet ?

 

- É um local no computador, onde podemos ver e ouvir muitas coisas, notícias, músicas, conhecer pessoas, ler,

 escrever, sonhar, trabalhar, aprender. Tem de tudo no mundo virtual.

 

- E o que é virtual?

 

Resolvo dar uma explicação simplificada, sabendo com certeza que
ele pouco vai entender e deixar-me-ia almoçar, sem culpas.

 

- Virtual é um local que imaginamos, algo que não podemos tocar,
apanhar, pegar... é lá que criamos um monte de coisas que gostaríamos de fazer.
Criamos as nossas fantasias, transformamos o mundo em quase como queríamos que fosse.

 

- Que bom isso. Gostei!

 

- Menino, entendeste o significado da palavra virtual?

 

- Sim, também vivo neste mundo virtual.

 

- Tens computador?! - Exclamo eu!!!

 

- Não, mas o meu mundo também é vivido dessa maneira...Virtual.

A minha mãe fica todo dia fora, chega muito tarde, quase não a
vejo, enquanto eu fico a cuidar do meu irmão pequeno que vive a chorar
de fome e eu dou-lhe água para ele pensar que é sopa, a minha irmã mais
velha sai todo dia também, diz que vai vender o corpo, mas não entendo, porque
ela volta sempre com o corpo, o meu pai está na cadeia há muito tempo, mas
imagino sempre a nossa família toda junta em casa, muita comida, muitos
brinquedos de natal e eu a estudar na escola para vir a ser um médico um dia.

Isto é virtual não é senhor???

 

Fechei o  portátil, mas não fui a tempo de impedir que as lágrimas caíssem
sobre o teclado.

 

Esperei que o menino acabasse de literalmente 'devorar' o prato
dele, paguei, e dei-lhe o troco, que me retribuiu com um dos mais belos
e sinceros sorrisos que já recebi na vida e com um

 

'Brigado senhor, você é muito simpático!'.

 

Ali, naquele instante, tive a maior prova do virtualismo insensato em que
vivemos todos os dias, enquanto a realidade cruel nos rodeia de
verdade e fazemos de conta que não percebemos!

 

2 comentários

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    Maria Araújo 15.10.2010

    E eu sou uma das culpadas de tudo isto.
    Ainda hoje, fui a pá ao Braga Parque. A minha sobrinha quis comer um gelado.
    Dei-lhe o porta-moedas.
    2,50 euros foi quanto pagou por um copo com duas bolas de gelado de framboesa.
    Este valor dava para comprar um gelado Pingo Docce, que ela adora. Daria para vários dias.
    E, não foi só o gelado, Decidi comprar a revista El Mueble. Já não compra há meses. Dei uma olhada, não tinha nada de especial, mas comprei. ..Para ficar na prateleira talvez esquecida, pois tenho outras mais antigas mais interessantes, também.
    E assim se gasta umas moedas, em nada que nos aumente a cultura.
    Tenho que (re)pensar os meus hábitos e gastos.
    Beijinho
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