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Cantinho da Casa

Cantinho da Casa

# fique em casa 16

Maria Araújo, 31.03.20

Ontem, estive ao telefone com a minha amiga N, falámos até às 02:00h, lembramos coisas dos pais, de nós, das amigas, das  nossas vidas.

Parte da  manhã foi a ler alguns blogues( há que matar o tempo) embora tenha o cesto cheio de roupa para passar a ferro, mas há tempo.

Fiz uma hora de exercícios de Pilates. Tenho alternado com a banda elástica, a bola, e a toalha. O meu ginásio proporciona aulas online, via FB, mas como  prescindo desta rede social, prefiro adaptar, aqui em casa, os que lá faço.

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a  minha gata ora senta-se a observar-me,ora passa por cima daquele tapete esquecido nas arrumações, para arranhar as unhas.

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Hoje, e a propósito deste post cheio de humor ( obrigada por nos fazeres rir  logo de manhã) e do comentário que a Luísa fez, e não gostando de muitos dos vídeos que tento seguir porque  tenho de parar os exercícios para ver como se faz, querendo hoje trabalhar os braços,e há muito tempo que não faço cárdio,  este vídeo que sugeriu ao Trip foi o ideal para não ter momentos de paragem.

Então, depois de fazer os exercícios das minhas aulas dePilates, fiz os do vídeo.

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Obrigada,  Luísa,  pelo link. Foi muito proveitoso.

Depois do almoço andei pela net, até que  recebi uma mensagem que dizia que na farmácia, a mais perto de casa, há gel desinfectante.

Como precisava de pôr o lixo no contentor, pensei passar lá.

Aproveitei para ver o sobrinho neto  (nem os beijos e os abraços do costume lhe dou).

A farmácia está fechada, tem agora um postigo para atendimento. Ninguém à porta, fomos atendidas de imediato.

Pedimos produtos o para  o menino, e o gel.

Descemos a avenida, a padaria  estava aberta, entrou a sobrinha, primeiro.

Saiu,entrei eu. Comprei pão e fermento ( vou experimentar fazer pão pela primeira vez na vida).

E no regresso a casa, o mercadinho estava aberto, comprámos morangos.

Já vai no décimo dia que não preciso de sair de casa para compras de supermercado.

# fique em casa 14 e 15

Maria Araújo, 30.03.20

domingo, tinha coisas para publicar,restringi-me à foto da semana... O dia começou com uma triste notícia.

Na noite de sábado, a minha amiga N tinha ligado, eu não ouvi o telemóvel, vi a chamada quando me fui deitar, 2h20( pela hora actual),de imediato deixei mensagem no messenger a dizer que falaríamos no Domingo.

Ontem de manhã, fui acordada com o toque do telemóvel, saí da cama a correr até à sala para atender. Quando li o nome da minha amiga( irmã como ela diz que sou) N, pensei que algo estaria mal.

A chorar  desorientada, comunicou-me que o pai falecera. 

Fiquei sem saber o que dizer.E disse não sei o quê.

O pai fora para o hospital no sábado, ficara internado para fazer exames. 

E morreu tranquilo durante a noite.

Desesperada que estava, disse-lhe que ia a casa, precisava de a confortar.

Mas quando saí de casa, naquela inconstância do vai, não vai, depois de uns largos metros de percurso, telefonei à M,outra grande amiga de coração, expliquei o que acontecera, se havia de ir, ou não, o  ter a certeza que ao chegar a casa ia esquecer-me do Coronavírus, ia abraçá-la, dar-lhe conforto, chorar com ela.

Esta disse-me que seria melhor não ir,que lhe ligasse, ela ia compreender.

Quando desliguei o telefone, já tinha voltado para casa.

Liguei-lhe. E ela entendeu. E chorou, e chorámos.E demos conta do que nos está a impedir de nos abraçarmos,de

conversarmos, de lembrarmos os nossos entes queridos que já foram.

Hoje foi o funeral.

Dissera-me que o funeral  seria no cemitério, apenas dez pessoas poderiam estar presentes,que a funerária dava máscaras e luvas.

Eu comuniquei que estaria presente, mas longe uma vez que a família tinha prioridade.

Quando lá cheguei, estariam mais de dez pessoas, não saí do carro.

A minha homenagem foi o meu silêncio dentro do carro.

Depois do cortejo fúnebre passar o portão do cemitério, foi fechado.

Quatro homens estavam cá fora com máscaras nas mãos, presumi que haveria outro funeral.

E nesse curto espaço de tempo que estive no carro,chegaram quatro carros fúnebres. Esperavam a sua vez para entrar.

Um entrou, sem ninguém para a cerimónia,os outros ficaram à espera.

Só quando saíu o grupo do funeral do pai da minha amiga, entraram os outros carros,em que estavam apenas duas pessoas a acompanhar.

E foi então percebi e senti a dor das imagens que vira nas notícias ( deixei de ver) dos funerais  das vítimas do Coronavírus.

A dor de não poderem estar presentes nestas horas de desespero em que dar a mão e o abraço são tão importantes,de sentirem que no sofrimento os familiares e amigos estão ali,mesmo que por breves minutos.

Quando a minha amiga me viu,dentro do carro, acenou-me.

Aproximou-se.Ficou a cerca de três metro de mim. 

Falámos um pouco,chorámos.

Os familares mantinham alguma distância. Despediram-se dela e de mim, com um levantar da mão.

O pai da minha amiga tinha 91 anos e morreu tranquilo.O coração fraquejara, desta vez.

Não teve o funeral que merecia.

Tempos tristes e esquisitos estamos a viver.

Fossem estes  "normais", estaria em casa da minha amiga a dar-lhe o conforto que tanto precisa.

 

 

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