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Cantinho da Casa

Cantinho da Casa

2008, numa noite fria de sábado de Maio.

Maria Araújo, 10.05.19

Entre 2007 e 2008 foram inúmeras as viagens para Lisboa, a irmã mais velha enferma, eram as leituras dos destaques do Sapo no intervalo da hora do almoço, que noutras horas era impossível, e à noite deitar-me tarde para no dia seguinte levantar-me cedo para ir trabalhar, que me distraíram das preocupações desse ano complicado e que, de repente, nessa noite fria de sábado de Maio, decidi arriscar, e eu não sabia como tudo isto funcionava, abrir um blog na plataforma do Sapo.

Nome para ele não tinha, como começar não sabia.

Estava sozinha em casa. E nasceu o nome deste cantinho, com a certeza que não levaria este para a frente, não teria pernas para andar. 

Mas andou. E anda.

No seu percurso teve este blog momentos altos e baixos, e ainda recentemente, sobretudo à noite, naqueles dias que as preocupações surgem quando estou na cama para dormir um sono tranquilo e a mente teima em recordar-me coisas do passado, quando os momentos baixos me dizem, "apaga o blog, deixa de perder tempo com banalidades", e tomo a decisão de o fazer no dia seguinte,  chega a manhã, comento: " és doida, deixa-o ficar. quando fores velhinha, e se a memória não te faltar, vais ler com carinho e surpresa o que escreveste lá atrás".

Onze anos depois, e com uns quantos inesperados destaques, escrevi as banalidades da que é a minha vida simples e sem artifícios, com alegrias e tristezas, e ainda muitas preocupações que me tiram o sono, mas que o meu lado positivo me dá força para continuar o caminho por cá.

Hoje o meu blog completa 11 anos.

Obrigado aos poucos, mas bons, bloggers que o lêm;  aos que apenas o visitam; a todos os que deixam os seus comentários  e que faço questão de responder;  aos que tive o prazer de conhecer pessoalmente, aos meus amigos dos encontros de bloggers

Gratidão é isto: ter-vos por cá.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

fui visitar a Alice

Maria Araújo, 06.05.19

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Desde Dezembro de 2017 que não visitava a Alice, a minha amiga que fez 58 anos no passado sábado. 

Como não ia passar o fim de semana  na praia, pensara visitá-la, de preferência no Domingo, contactei uma das nossas grandes amigas que confirmou que a Alice passaria o aniversário com a família.

Combinamos visitá-la no Domingo, passei em casa desta amiga, fomos à Casa de Saúde.

Pelo caminho soube que muito mudou nas visitas à Alice: antes de qualquer pessoa a visitar, liga para a Casa de Saúde, a recepcionista telefona para um membro da família que dá, ou não, (depende de quem é e se a conhece) consentimento à visita.

Ontem, assim foi.

Na recepção comunicamos a autorização da visita. Percorremos o longo corredor e, de repente, ouço a minha amiga dizer: " olha quem aqui está!". E vejo a Alice sentada, já à nossa espera.

Quando a vi, senti uma dor no coração, uma vontade enorme de chorar.

A Alice tinha o mesmo rosto, estava com bom aspecto, mas não nos reconheceu.

Reagiu à voz da minha amiga, que perguntou quem eu era, e não obtendo resposta, disse o meu nome, mas pouco ou nada saiu daquela boca.

A Alice emitia sons, ou repetia as palavras da minha amiga de forma incompleta, olhava-me mas não sorria, eu dava-lhe a mão que ela agarrava, mas largava-a de imediato.

Fomos ao café, tive de chegar o copo à boca; ela não o segura.

Seguimos para o jardim, a minha amiga falava com ela, eu também, às vezes ria-se, mas as poucas palavras eram sons, tal e qual um bebé que ainda não sabe falar.

Regressávamos ao interior do edífico, estava uma família  com três crianças sentadas num banco do jardim. Ela vê as crianças e vai na sua direcção. As palavras que diz sempre que vê crianças são: " ai, que lindas!".

Já no interior as crianças entram na cabine telefónica, ela vê-as, diz olá e que lindas, ao mesmo tempo que sai uma gargalhada com um prazer  imenso, deixou-nos feliz, também. 

Durante a hora que estivemos as três, as únicas palavras completas que saíram da sua boca foram para as crianças.

Na hora de sairmos, a minha amiga foi chamar uma funcionária que levaria a Alice para a sua " casa" ( mais um pormenor que mudou, sempre foram as visitas que a deixavam à porta da casa) ela não me ouve, foge de mim, segue as crianças que já estavam perto da saída, chegou às escadas e parou. Olhou-me. Eu disse que não era ali a sua casa, dei-lhe a mão tentando voltar para trás, já estava a funcionária junto de nós para a levar.

Quando a minha amiga lhe pediu um beijo e lhe disse que voltaríamos, ela deu.

Eu fiz o gesto para lhe dar um beijo, ela olhou-me, não ofereceu o rosto, e pedi à minha amiga que não insistisse para o dar.

As lágrimas caíam-me do rosto quando saímos. 

A noite passada dormi mal a pensar na Alice.

Voltaremos lá, brevemente.

Ela precisa de ver outras pessoas.