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Cantinho da Casa

Cantinho da Casa

19 anos

Maria Araújo, 04.07.17

 "Vi-te nascer".

Quando chegaste ao quarto e a enfermeira te pôs no colo da mãe, a primeira coisa que ela fez foi olhar o teu rosto e as tuas mãozinhas pequenas e fofinhas , se eras perfeita ( ó mãe, tu estavas tão abatida do parto).

Nunca quiseste o biberão, nem a chupeta, querias o leite da tua mãe. 

Ia a pé buscar-te ao infantário, quase todos os dias. Nos dias bonitos de primavera e verão, levava o teu carrinho, vinhamos pela rua fora, parávamos para ver o cão que tu gostavas mas temias, e eu também, por ser grande e ter um latir forte.

Depois, passávamos na padaria e comprava os bolos de  arroz miniaturas, que comias com prazer.

E nas férias, quando os teus pais ainda trabalhavam, ficavas aqui em casa, fazia-te a sopa, contava-te a história dos três porquinhos, dando-lhes sempre os nomes que tu querias.

Quando o prato era do teu agrado fazias um som com a boca, enquanto mastigavas,para mim uma canção que não sabias a letra : "hum,hum,hum, hum, hum"  e que me deixava fascinada.

Foste para a escola. Raramente tinhas dúvidas, sempre fizeste os trabalhos sozinha.

Por vezes, perguntavas-me: " o que quer dizer ... ?".

Eu explicava-te mas nem chegava a metade da frase e dizias: " já percebi, não preciso de mais nada."

Nunca exigiste nada. Por vezes, querias um chocolate, um doce, algo que eu achava que não devia dar-te.

Eu respondia que não podia ser porque não tinha dinheiro, ou porque não podias comer muitos doces ( e ainda és gulosinha), e tu aceitavas, como ainda hoje aceitas e dizes: "tudo bem tia L, não te preocupes".

O tempo passou depressa. Cresceste.

Quando no ano passado terminaste o 12º ano e disseste que querias um ano sabático e não te candidatarias, fiquei sem palavras.  A tua mãe dissera que sim, que te dava o ano para fazeres o que entendesses.

Eu fiquei triste. Mas compreendi. 

Foi um ano intenso: trabalhaste, tomaste conta dos teus primos, foste FAT  duas vezes, adoptaste o Mickey, não dormiste horas para cuidar deles de noite, foste ao Rio de Janeiro. E continuas a dar o teu máximo a fazer voluntariado no gatil. 

Um ano que eu temi, mas passou rápido!

Muito havia para dizer aqui, mas tu não gostas que fale de ti no blog.

Hoje, e com muito orgulho que tenho de ti, minha sobrinha e afilhada, não podia deixar de te homenagear com tão pouco quanto este pequeno texto.

Não me leves a mal. Já sabes que não digo mais que a medida certa.

Quero que procures ser uma jovem adulta e responsável, que és, sem dúvida, que tenhas sucesso no curso que escolheres, que continues a confiar na tua família que está sempre contigo para te apoiar.

Feliz Aniversário, Sofia.

 

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2 comentários

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    Maria Araújo 05.07.2017

    Ena! Que maravilha!
    Uma minoria faz-nos ter orgulho nestes jovens tão talentosos.
    Parabéns.
    Fico tão feliz quando leio isto.
    Há cerca de 4 meses fui aconselhada pela ginecologista ( simpática qb e dizem que muito boa médica) a ir a uma médica de endocrinologia.
    Quando entrei no consultório, deparei-me com uma jovem que me disse que mal lera o meu nome o conhecera.
    Fiquei a olhar para ela.
    Eu tinha sido sua professora em 1997.
    Há cerca de dois meses, no ginásio, uma jovem, elegantérrima, que aguardava a aula a meu lado, diz-me que fora sua professora, também.
    Estava de férias fora para o ginásio aliviar a cabeça, dizia.
    Profissão: enfermeira no IPO do Porto, nos cuidados paliativos.
    Também no café, recentemente, tinha encontrado um jovem, que fora meu aluno, tinha estudado direito na Universidade do Minho, trabalha lá.
    Todos estes foram nos primeiros anos que leccionei ainda não havia a rebeldia das redes sociais, eram mais humildes.
    Agradeci-lhes terem-me dito que eu fora professora.
    É complicado conhecê-los 20 anos depois ( leccionei 2º ciclo).
    O tempo passa, crescem, alguns mudam as feições, deixámos de os conhecer.
    E eu fico orgulhosa quando eles se manifestam.

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