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Os pais, os filhos, os alunos e os professores

por Maria Araújo, em 18.02.10



 

Quando um aluno entra na escola às 8h e sai às 20h, tem pai/mãe em média 3h por dia. Que geração estamos a criar? 

 

Contra a escola-armazém
 
 

Daniel Sampaio


 

M erece toda a atenção a proposta de escola a tempo inteiro (das 7h30 às 19h30?), formulada pela Confederação Nacional das Associações de Pais (Confap). Percebe-se o ponto de vista dos proponentes: como ambos os progenitores trabalham o dia inteiro, será melhor deixar as crianças na escola do que sozinhas em casa ou sem controlo na rua, porque a escola ainda é um território com relativa segurança. Compreende-se também a dificuldade de muitos pais em assegurarem um transporte dos filhos a horas convenientes, sobretudo nas zonas urbanas: com o trânsito caótico e o patrão a pressionar para que não saiam cedo, será melhor trabalhar um pouco mais e ir buscar os filhos mais tarde.
Ao contrário do que parecia em declarações minhas mal transcritas no PÚBLICO de 7 de Fevereiro, eu não creio à partida que será muito mau para os alunos ficar tanto tempo na escola. Quando citei o filme Paranoid Park, de Gus von Sant, pretendia apenas chamar a atenção para tantas crianças que, na escola e em casa, não conseguem consolidar laços afectivos profundos com adultos, por falta de disponibilidade destes. É que não consigo conceber um desenvolvimento da personalidade sem um conjunto de identificações com figuras de referência, nos diversos territórios onde os mais novos se movem.
O meu argumento é outro: não estaremos a remediar à pressa um mal-estar civilizacional, pedindo aos professores (mais uma vez...) que substituam a família? Se os pais têm maus horários, não deveriam reivindicar melhores condições de trabalho, que passassem, por exemplo, pelo encurtamento da hora do almoço, de modo a poderem chegar mais cedo, a tempo de estar com os filhos? Não deveria ser esse um projecto de luta das associações de pais?
Importa também reflectir sobre as funções da escola. Temos na cabeça um modelo escolar muito virado para a transmissão concreta de conhecimentos, mas a escola actual é uma segunda casa e os professores, na sua grande maioria, não fazem só a instrução dos alunos, são agentes decisivos para o seu bem-estar: perante a indisponibilidade de muitos pais e face a famílias sem coesão onde não é rara a doença mental, são os promotores (tantas vezes únicos!) das regras de relacionamento interpessoal e dos valores éticos fundamentais para a sobrevivência dos mais novos. Perante o caos ou o vazio de muitas casas, os docentes, tantas vezes sem condições e submersos pela burocracia ministerial, acabam por conseguir guiar os estudantes na compreensão do mundo. A escola já não é, portanto, apenas um local onde se dá instrução, é um território crucial para a socialização e educação (no sentido amplo) dos nossos jovens. Daqui decorre que, como já se pediu muito à escola e aos professores, não se pode pedir mais: é tempo de reflectirmos sobre o que de facto lá se passa, em vez de ampliarmos as funções dos estabelecimentos de ensino, numa direcção desconhecida. Por isso entendo que a proposta de alargar o tempo passado na escola não está no caminho certo, porque arriscamos transformá-la num armazém de crianças, com os pais a pensar cada vez mais na sua vida profissional.
A nível da família, constato muitas vezes uma diminuição do prazer dos adultos no convívio com as crianças: vejo pais exaustos, desejosos de que os filhos se deitem depressa, ou pelo menos com esperança de que as diversas amas electrónicas os mantenham em sossego durante muito tempo. Também aqui se impõe uma reflexão sobre o significado actual da vida em família: para mim, ensinado pela Psicologia e Psiquiatria de que é fundamental a vinculação de uma criança a um adulto seguro e disponível, não faz sentido aceitar que esse desígnio possa alguma vez ser bem substituído por uma instituição como a escola, por melhor que ela seja. Gostaria, pois, que os pais se unissem para reivindicar mais tempo junto dos filhos depois do seu nascimento, que fizessem pressão nas autarquias para a organização de uma rede eficiente de transportes escolares, ou que sensibilizassem o mundo empresarial para horários com a necessária rentabilidade, mas mais compatíveis com a educação dos filhos e com a vida em família.
Aos professores
, depois de um ano de grande desgaste emocional, conviria que não aceitassem mais esta "proletarização" do seu desempenho: é que passar filmes para os meninos depois de tantas aulas dadas - como foi sugerido pelos autores da proposta que agora comento - não parece muito gratificante e contribuirá, mais uma vez, para a sua sobrecarga e
para a desresponsabilização dos pais.
 

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11 comentários

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De João Freire a 24.05.2010 às 19:09

Sou professor do Estado do Paraná. Estou fazendo um trabalho didático que trata da participação da familia na educação, achei interessante a imagem deste texto e gostaria de obter autorização para seu uso em Material Didático para uso educacional sem fins comerciais.
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De Maria Araújo a 24.05.2010 às 19:25

João Freire, este artigo foi escrito por um psicólogo português, Daniel Sampaio. Tem vários livros publicados.
Pode procurar em pesquisas google o nome dele e aí consegue muito mais.
Mas é obvio que pode (re)tirar tudo o que quiser.
Bom trabalho.

Maria
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De Anónimo a 08.03.2010 às 13:31

Por qualquer razão, talvez por intervenções das Associação de Pais, voltam ao de cima (através de blogs e e-mails) alguns textos de opinião sobre (e contra) as ETIs.

Nomeadamente, são sustento dessas opiniões dois textos de Março e Abril de 2009 do Professor Joaquim Azevedo e do Dr. Daniel Sampaio.
Considero os textos exagerados.
Até demagógicos e mal direccionados.
A ETI é um bem e um bem necessário. Mesmo que por más razões de organização social. Talvez por haver óbvios excedentes na diferença entre as expectativas e as realidades da nossa população. Todos acham ganhar pouco e querer (muito) mais. Ninguém acha poder prescindir de uma parte do rendimento para ganhar algum tempo para si e para os seus. Outros, e isso é mais grave, pura e simplesmente têm que se sujeitar ao que lhes oferecem para poderem ter algum rendimento.

Não vejo qualquer problema que as crianças estejam bem enquadradas, por educadores ou outros técnicos habilitados, no local onde frequentam a Escola.

Vejamos:

Esqueçam a ideia de “Escola” como um edifício.
A “Escola” é o que os pedagogos e os “eduqueses” (os que promovem o eduquês) quiserem. No tempo que entenderem correcto. Decidam, mas não andem (o que é costume) aos zigue-zagues constantes.

O Pólo Educativo será um conjunto de instalações físicas, geridas por uma qualquer entidade e por quaisquer gestores. Não forçosamente (e de preferência não) docentes (estes geriam a "Escola" que tem uma vertente pedagógica) Nesse Polo desenvolvem-se as actividades escolares e… outras quaisquer, nos períodos extra.

Porque quererão os “donos da Escola” se apropriar dos espaços para além do tempo que lhes cabe?

Esses espaços, do Pólo Educativo serão – também - da Escola. Para cumprirem o seu papel. Mas serão da comunidade para suprir outras necessidades nos tempos e períodos sobrantes. Porque não?

Não por 24 horas, mas certamente por 8, por 10 ou, até 12h. Porque não adiantará em nada fechar o Pólo Educativo quando acaba a Escola para assegurar o que os srs. professor e psicólogo defendem (e que todos defenderíamos como um qualquer objectivo lapalaciano): que as crianças ficassem mais tempo com as suas famílias. Ora as famílias não estarão lá…

Assim, logo floresceriam os ATLs manhosos num qualquer rés-do-chão perto das escolas onde os senhores professores se amanharão com mais algum rendimento extra (pago pelas famílias que não estão…) pelo trabalho ali exercido, na sua componente não lectiva (e já pago pela escola, mas durante o qual o srs. professores fazem o que quer).

A Escola não tem que crescer. Por mim até teria que diminuir. Mas aí, logo viriam os sindicatos combater o menos emprego docente resultante da medida. Ou sejam, as verdadeiras razões que fazem com que a Escola em Portugal seja, para os alunos, uma verdadeira cruz…

Não é a ETI (e o que esta traz, para além das actividades Escolares – chamemos-lhe assim) que está mal. O que está mal é mesmo a Escola, com actividades curriculares obrigatórias exageradas (pelo menos a partir do 2º Ciclo).

A ETI é um bem e bem vinda. Experimentem perguntar às famílias (cujos pais ou um deles não seja professor) qual a sua importância…

Por mim só faltará clarificar aquele facto: quando a Escola termina, começam outras coisas. Os “senhores da Escola” podem se ir embora, mas não queiram deixar os espaços fechados a cadeado e os menimos à porta. Estes espaços são da comunidade e aí deverão ser desenvolvidas as actividades necessárias a essa comunidade. Por docentes (irão logo perceber o potêncial de emprego que ali se cria) ou por outros elementos de enquadramento quaisquer.

E, até que a sociedade possa ser diferente (e garantir que as famílias possam trabalhar menos) essas actividades são fundamentais e incontornáveis.

O resto do texto em:

http://ocontradito.blogspot.com/2010/03/fim-as-etis-e-escolas-armazens.html
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De Tixa a 19.02.2010 às 20:26

olá

bem, eu como aluno é normal que não concordo com isto, visto que me levanto às 6 e 20 da manha para ter autocarro por volta das 7 e só tenho aulas às 9 e 05 e, só chego a casa às 19 horas, ou seja, passo cerca de 12 horas fora de casa. o tempo que passo em casa é para estudar alguma coisa, jantar, estar um pouco com a familia e dormir uma vez que é desgastante levantar todos os dias tão cedo... posso concluir com isto que cada vez menos os estudantes estão com a familia... imaginemos que tenho aulas até às 20 horas... como seria? ou andava a dormir todos os dias por nao ter tempo para dormir ou estava menos de uma hora com a familia... mas enfim...

beijinhos
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De Maria Araújo a 19.02.2010 às 22:17

Jovem, tens razão. E sabes que a carga horária é muito pesada para vós.
A questão aqui é que os professores têm muitas responsabilidades que deveriam ser dos pais.
Para além do trabalho que trazem para casa as preocupações dos alunos, o tentar apoiar este ou aquele com mais dificuldades, o carinho que muitas vezes temos de dar, porque é o único que têm, acredita..
Obrigado por teres comentado este post.

Beijinho
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De comunicadoras a 19.02.2010 às 19:49

Concordo plenamente com este texto e acho que a escola não pode nem deve fazer tudo. Hoje em dia os pais querem ganhar muito dinheiro para que os filhos possam ter tudo; esse tudo não é nada necessário para elas; de certeza que preferiam ter roupas mais simples, não ter telemóvel e terem os pais mais disponíveis. Há pais que conseguem arranjar tempo, mesmo que pouco para darem atenção aos filhos; não é preciso muito, o que é necessário é que seja de qualidade.Muitas mães poderiam colocar alguém em casa para as ajidarem com as tarefas domésticas tendo assim mais tempo para os filhos, mas não se pode gastar dinheiro; há que juntar para aquelas férias ao estranjeiro e aquele carrão semelhante ao do vizinho. O maior problem é esse; a ganância de se ter cada vez mais, faz com que se corra atrás do dinheiro e se deixe para tras o que é mais importante que é o tempo passado com os filhos. Vejo muitas crianças lindas, vestidas com roupas de marce, mochilas caríssimas, telemóveis de última geração, mas vejo nelas aquele olhinho triste e com uma carência de afecto que dá dó. Um beijinho, amiga e um bom fim de semana
Emília
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De Maria Araújo a 19.02.2010 às 22:09


Olá.Penso que é um dos grandes problemas do jovens de hoje: carinho e afecto.
As crianças são sempre as vitímas.

Beijinho
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De Carapau a 19.02.2010 às 19:31

A tua pergunta é pertinente.
Que tipo de geração estamos a criar? Talvez "ainda" pior que a dos pais, pois eles já são duma geração "criada" assim.
Por outro lado o mundo está sempre em mudança e o hoje não é (não pode ser) igual ao ontem.
É melhor? É pior? Não estarei cá para saber a resposta.
Concordo com parte do escrito do Daniel Sampaio, não concordo com outra parte.
Bjo.
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De Maria Araújo a 19.02.2010 às 22:06

Este artigo recebi-o por e-mail e achei que devia postá-lo para ver as reacções, que divergem.

Beijinho
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De Rui da Bica a 19.02.2010 às 19:14

Ao ler o título ocorreu-me a palavra "Depósito" !
É isso que eles fazem: depositá-los.
Antigamente, as mães normalmente não trabalhavam fora de casa e havia muito mais tempo para educar em casa (complementando a escola)
Hoje os professores têm uma responsabilidade acrescida.
... E se ao menos quando os pais chegassem a casa não saíssem ?... o problema são ainda os compromissos sociais, com os amigos e os filhos lá têm que ficar com o/a irmão mais velho ou depositados nos avós..
.Bjs.
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De Maria Araújo a 19.02.2010 às 22:04

Para mim a questão está no facto de os professores terem de fazer todos os papeis, na escola.
Não custa muito, mas precisamos da colaboração dos pais, o que na maioria das vezes falha.

Beijinho

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