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Sonho

por Maria Araújo, em 20.12.09

Quando era criança não havia pai Natal.

Em minha casa era feito um presépio grande com todas as figuras alegórica de uma aldeia pequena. Algumas ainda guardo numa caixa, outras partiram-se com o decorrer dos anos, mas Nossa Senhora, São José, o Menino Jesus, a vaca e o burro, nunca deixaram de fazer parte das minhas humildes decorações de Natal. 

Minha mãe comprava musgo, fazíamos uma cabana para a Sagrada Família com uma caixa de sapatos revestida com esse musgo, e depois coberta pela eterna mas sempre na moda, a farinha Branca de Neve. Um rio feito de papel celofane azul fazia mover as velas do moinho, uma ponte em barro, com alguns carneirinhos que se posicionavam para o lado da cabana, sempre com o olhar atento do pastor; as lavadeiras que lavavam a roupa; a banda de música que tocava em honra do Menino, e para finalizar a cena os três Reis Magos, Baltazar, Gaspar e Melchior. Ah! A estrela feita de papel dourado era colocada por cima da cabana para orientar o caminho  dos Reis. Este presépio era completado com um pinheirinho de Natal que o meu pai cortava no monte e decorado com bolas vermelhas, estrelas, sinos e,  farinha Branca de Neve.

Com os tempos modernos o presépio foi desaparecendo na decoração de Natal. Não é que não tenha vontade de o fazer, mas porque para arranjar musgo, teria de  ir ao mercado municipal, o que não faço há alguns anos.

 

Quando era criança não havia pai Natal e,  nessa altura, as prendas que desejávamos ter eram pedidas ao Menino Jesus. Se ele nasceu pobre, numa cabana humilde, porque seria ele a dar-nos prendas?,  perguntava-me já  mais crescidinha, mas também não me recordo de perguntar aos meus pais.

Cerca de quinze dias antes do Natal,  a minha mãe dizia que devíamos escrever uma carta ou um bilhete ao Menino Jesus e pedir o que gostaríamos de receber. Depois deveríamos colocá-la no marco do correio para que chegasse a tempo de Ele preparar o que desejávamos.

Não me recordo de alguma vez ter pedido bonecas. Nunca as tive.

O bilhete era escrito e remetido  no próprio papel para, "Menino Jesus, céu".

Lembro-me muito bem do marco de correio onde o colocava. Colocava-o direitinho na ranhura para que caísse bem para o fundo não fosse estar repleto de cartas e as nossas já não caberem .

Passo frequentemente na praça onde existia esse marco e onde passava tardes infinitas de brincadeira.(Um dia encontrei uma moeda de 5$00. Não fazia a menor ideia do que fazer à moeda. Mas como era muito gulosa por rebuçados, pirolitos e chocolates, fui a uma lojinha perto da praça e comprei todo o valor em rebuçados.
Quando a senhora me entregou um "cartucho" cheio de rebuçados fiquei sem saber onde meter, pois no estômago na caberiam todos. Nhaaaaacccc! e a minha mãe iria ralhar-me de ter gasto esse dinheiro em gulodices).

A noite de ceia era sempre bem passada, mas nunca recebíamos as prendas à meia-noite.

Deitavamo-nos sempre ansiosas(os) que a manhã seguinte chegasse rápido para podermos ir à cozinha e ver o que o Menino tinha deixado. Os sapatos eram deixados em cima do fogão para que durantre a noite o Menino descesse a chaminé e colocasse as nossas fantasias de criança.

Numa  noite de ceia de Natal, dormia com a minha irmã mais velha, sonhei com o Menino Jesus. Vestido de branco, aproximou-se da nossa cama e falou comigo. O que me disse não me lembro. Só me lembro de ver um vulto vestido de branco.

Lembro-me de acordar a chorar e dizer à minha irmã que tinha visto o Menino Jesus e que ele falara comigo. Mas não estava lá. Minha irmã dizia-me que eu sonhara. Que era impossível vê-lo porque  Ele tinha de deixar prendas em todas as casas do mundo e não havia  tempo para falar com as crianças.

Sim, sonhara, mas nunca me esqueci da sombra branca que vira.

Acordávamos muito cedo e  íamos excitados para a cozinha, todos , porque nesta família havia quatro filhos, que mais tarde foi completada com mais dois, ver as prendas do Menino Jesus.

 Meias, camisolas, luvas. Nunca brinquedos.

Tenho uma vaga ideia de termos uma tábua de passar, um fogão, louça, ferro, mas se foram prendas de Natal, isso não me recordo.

Mas eram sempre bem-vindas aquelas peças quentinhas e fofas. 

O tempo foi passando, os meus pais tiveram netos e a tradição passou do Menino Jesus para o pai Natal. Nós fomo-nos adaptando à mudança deixando para trás o Menino que era e é lembrado  no presépio que  hoje tenho, comprado há alguns anos, também com musgo "incorporado", embora já esteja a precisar de uma nova e verde cobertura.

Este ano o Natal é aqui em minha casa. A família está mais pequena. Os mais velhos já não estão cá.

E porque é Natal e penso que nesta época me lembro sempre do meu sonho de criança "com o Menino Jesus", aqui deixo o  meu pequeno conto de Natal.

 

 

 

 

 

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4 comentários

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De Maria Araújo a 21.12.2009 às 23:22

Rui, apesar de tudo, continuo a gostar da magia do Natal. Mas concordo que é um exagero.
A própria publicidade na TV, especialmente a relativa aos perfumes, irritam-me.
E gosto de perfumes, mas não os compro.
Prefiro deixar ao gosto do outros.
Beijinho
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De Rui da Bica a 21.12.2009 às 21:56

Bonito,... Cantinho !
Sabe tão bem recordar !...

É curioso que muitas das coisas descritas coincidem com as minhas recordações mas outras não :
Não me lembro de ter pedido prenda específica. Era o que o menino Jesus mandasse pelo Pai Natal. Sempre surpresa.
O menino Jesus era muito pequenino e tinha o empregado, Pai Natal, que “só” executava, por ordem dele.
Prioridade para a árvore de natal, com neve de lã de vidro, “fios” reluzentes e bolas coloridas e o presépio na sua base, mais simbólico, pequeno e menos grandioso.
Nunca escrevi ao Pai Natal. Os meus filhos, sim.
Prendas de manhã, só até aos 3, 4 anos. Depois à meia-noite, no sapatinho no fogão.

Dantes havia mais “magia”, era menos comercial, prendas mais simbólicas, mais espiritual e com uma base mais religiosa, com missa do galo no fim, a que quase todos iam. Hoje está mais virado (e bem) para a afectividade (familiar e amigos), e para as dádivas materiais para aqueles que não podem ter Natal, mas há um mal, o das prendas caríssimas, menos simbólicas, esbanjamento, mas é Natal na mesma e isso é bom !
Para mim, em primeiro lugar, acima de tudo, "A Festa da Família" !
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De Maria Araújo a 21.12.2009 às 17:40

É verdade não só não concordo nem gosto de ver o pai natal pendurado nas varandas, mas também as bandeiras do Menino Jesus. Já sou a favos das luzes de Natal simbolizam a paz, a solidariedade,a família, e dão um toque de magia à noite.
Beijinho
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De Carapau a 21.12.2009 às 16:52

Assino e ponho a chancela. "Se bem me lembro" lá na casa onde nasci e morei alguns anos, também era exactamente assim o Natal e a "cerimónia" dos presentes. Para os receber punha um sapato na chaminé (em geral uma bota porque sempre tinha maior capacidade) e era aí que na manhã seguinte, descalço os ia procurar.
Ainda hoje não há "por cá" Pai Natal. Agora até aparecem Pais Natais a trepar pelas paredes , quais assaltantes de saco às costas, que mais parece que vão buscar, que deixar.
Mas também não simpatizo com a pretensa moda de pendurar umas bandeiras com o Menino Jesus, nas varandas. Até parece que querem concorrer. Mas desta maneira a "jogar" em casa do homem do saco, não vai longe. O comércio optou pelo homenzinho de barbas brancas e não há nada a fazer. A não ser recordar.
Bom Natal!
Um beijo de Boas Festas.

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