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Jorge de Sena

por Maria Araújo, em 01.11.09

 

 

Se este escritor fosse vivo, completaria amanhã 90 anos.

Na RTP2 fala-se, ri-se, critica- se Jorge de Sena.

 

 

 

 

Ode ao Amor

 

 

 

Tão lentamente, como alheio, o excesso de desejo,
atento o olhar a outros movimentos,
de contacto a contacto, em sereno anseio, leve toque,
obscuro sexo á flor da pele sob o entreaberto
de roupas soerguidas, vibração ligeira, sinal puro
e vago ainda, e súbito contrai-se,
mais não é excesso, ondeia em síncopes e golpes
no interior da carne, as pernas se distendem,
dobram-se, o nariz se afila, adeja, as mãos,
dedos esguios escorrendo trémulos
e um sorriso irónico, violentos gestos,
amor...
             ah tu, senhor da sombra e da ilusão sombria,
vida sem gosto, corpo sem rosto, amor sem fruto,
imagem sempre morta ao dealbar da aurora
e do abrir dos olhos, do sentir memória, do pensar na vida,
fuga perpétua, demorado espasmo, distração no auge,
cansaço e caridade pelo desejo alheio,
raiva contida, ódio sem sexo, unhas e dentes,
despedaçar, rasgar, tocar na dor ignota,
hesitação, vertigem, pressa arrependida,
insuportável triturar, deslize amargo,
tremor, ranger, arcos, soluços, palpitar e queda.

Distantemente uma alegria foi,
imensa, já tranquila, apascentando orvalhos,
de contacto a contacto, ansiosamente serenando,
obscuro sexo à flor da pele... amor... amor...
ah tu senhor da sombra e da ilusão sombria...
rei destronado, deus lembrado, homem cumprido.

Distantemente, irónico, esquecido.

Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'

 


 

 

 

 

 

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7 comentários

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De Carapaucarapau a 04.11.2009 às 22:47

Agora já me chamas Carapai e tudo... :-)
Pelo que percebi o post vem na sequência dum qualquer programa (suponho de TV) que eu não vi. Daí não saber o que se passou lá, nem o que foi dito. Falei portanto a partir dos meus conhecimentos.
Bjo.
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De Maria Araújo a 04.11.2009 às 11:27

Sim, carapai. Eu conheço. Na altura do programa, lembrei-me de António Gedeão e de Zeca Afonso.
Mas como se falava de Jorge de Sena, fui buscar este poema, que diga-se, é bem bonito.
Beijo
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De Carapaucarapau a 04.11.2009 às 01:22

"Pedra Filosofal" é também um conhecido poema de António Gedeão. Aquele que começa assim : "Eles não sabem que o sonho//é uma constante da vida/ ..." que foi primeiramente cantada pelo Manuel Bandeira. O título do poema é capaz de ter a ver com o livro do mesmo nome do Jorge de Sena, pois o Jorge de Sna tem um estudo muito completo e original sobre a poesia de António Gedeão (de seu nome Rómulo de Carvalho, prof. de fisico-quimicas dos liceus, há uns bons anos atrás. Esse estudo faz entre outras coisas uma estatística dos termos "científicos" empregados por A. Gedeão na sua poesia. E mais coisas de que agora já não me lembro.
Fica aqui esta curiosidade.
Quanto ao poema...é de poeta!
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De Maria Araújo a 02.11.2009 às 23:23

Just, as críticas foram muito positivas, falaram muito bem de Jorge de Sena, citaram-se muitos poemas e excertos de escritos dele.
Foi um bom programa.
Beijinho
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De Just Moments a 02.11.2009 às 19:38

Olá..

Pena a critica..mas enfim!..é mais fácil criticar que dizer bem!!
E adoro este "Ode ao amor"..tão belo

E eu continuo por aqui..com pouco tempo..mas vou passando..

Obrigada!!

Beijinhos grandes
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De Maria Araújo a 02.11.2009 às 18:25

Olá.
Esta ode abrange com palavras fortes toda a essência do amor natural e puro, e do sexo, paixão/ódio.
Gostei das expressões, "ódio sem sexo" e "distante uma alegria foi".
Todo o poema é por demais belo, porque toca no nosso intímo.
Beijinho
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De comecardenovopt.blogspot.com a 02.11.2009 às 01:17

Muito bonita esta ode ao amor! Li com muita atenção e exclamei para mim mesma: engraçado...como consegue o amor ser tanta coisa...ser tão essencial, mas tão complexo; é um misto de sensações e emoções tremendo; sonha-se, da-se, recebe-se..faz-se...defaz-se...; é alegria, contentamento, dor, às vezes até desgraça, outras no entanto só graça. O poeta resume tudo ao dizer: « rei destronado, deus lembrado, homem cumprido». É assim o amor...é assim a vida...ambos complexos e os dois se fundem; não existem um sem o outro. Um beijinho
Emília

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