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as carpideiras

por Maria Araújo, em 07.06.17

Balneário do ginásio, três senhoras já prontas para sair, falavam das carpideiras.

Uma delas contava  que estas mulheres iam às igrejas chorar o morto, que não conheciam.

Ora numa altura, foram a um velório sem que fossem "contratadas" , chorar o homem da aldeia.

A esposa, sentada a um canto, não falava, não chorava.

Aproximaram-se, iniciaram a choradeira do costume:
"Ai coitadinho, tão boa pessoa, ai, ai".

A viúva, não dizia nada, até que uma delas perguntou-lhe porque não chorava, ao que respondeu: " Já devia ter morrido há muito tempo".

A choradeira, o pranto das outras continuava. A viúva, no seu canto, não mostrava sinal de dor, de desgosto pela morte do marido.

Voltou a ser interrogada até que diz: " Este homem já devia ter ido embora há muito tempo. Batia-me, maltratava-me, como posso eu chorar um homem que me fazia tão mal?"

Ora esta conversa trouxe-me à recordação as idas, algumas obrigatórias, aos funerais de pessoas amigas dos meus pais.

Na altura, não sabia que essas mulheres  não pertenciam à família do morto nem sequer que eram pagas para esse teatro. Destestava ouvir berros e choros disfarçados. Sempre me incomodaram. Como nunca gostei de ir a funerais. Dispenso. E se puder, fujo deles. 

Felizmente nunca mais presenciei estas cenas. E se alguma vez, num velório, me lembrei delas, com certeza que pensei que já não existiam.

Fui à procura de informação, encontrei este precioso site com documentários, filmes e livros do etnomusicólogo, que os mais velhos devem lembrar-se, ( não me lembrava de nada) era um programa da RTP, "O Povo que Canta" de  MICHEL GIACOMETTI.

 

«Choram-se» os seus próprios mortos ou manda-se «chorar» uma carpideira, que fará o serviço em troca de um alqueire de trigo ou coisa parecida.

 

"Choraste mulher, choraste...e recebeste o salário das tuas lágrimas...
Agora foges por entre os Espigueiros que guardam o pouco daqueles que tão pouco tem..."

O vídeo do youtube, no programa "Povo que canta" o choro de uma carpideira..

 

 

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25 comentários

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De José da Xã a 10.06.2017 às 00:08

Lembro-me bem desse programa.
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De Maria Araújo a 10.06.2017 às 00:22

Tenho de ir ao arquivo RTP para tentar lembrar-me de algum episódio.
Lembro-me do nome Alfredo Tropa e Michel Giacometti, mas não do programa.
Bom fim-de-semana, José.
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De O ultimo fecha a porta a 09.06.2017 às 22:09

Eu raramente vou a funerais. Quando são pessoas não família, não consigo ter o discernimento para as distinguir. Porém, faz-me um bocado de confusão o conceito em si.
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De Maria Araújo a 10.06.2017 às 00:23


Agora não acontece com frequência, mas nas aldeias parece.me que ainda existe.

Bom fim-de-semana.
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De O ultimo fecha a porta a 10.06.2017 às 11:54

Tinha a ideia contrária... isto porque nas aldeias as pessoas conhecem-se todas umas às outras e são muito solidárias entre elas. Por outro lado, são muito ligadas ao catolicismo e ao culto dos mortos, logo com menos necessidades desses "serviços".

Nos centros urbanos, onde o culto da morte é muito mais efémero e as pessoas têm menos tempo para velar os mortos, achei que fosse mais normal.

Boa caminhada!
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De Maria Araújo a 10.06.2017 às 19:07

Li algures que ainda existem, mas não sei se será fiel a notícia.
Encontrei isto aqui:

http://www.dn.pt/economia/dinheiro-vivo/interior/se-quer-muitas-pessoas-num-funeral-ja-pode-alugar-3133275.html

Bom fim-de-semana
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De redonda a 09.06.2017 às 17:35

Que prática tão estranha...
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De Maria Araújo a 09.06.2017 às 17:54

Não conhecias, Gábi?
Fala ao Rui e ele de certeza que conta alguma coisa.
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De redonda a 09.06.2017 às 18:10

Acho que tinha uma ideia delas, mas como sendo de outros países e tempos, como figuras que apenas pudéssemos encontra num livro.

um beijinho
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De A Hipster Chique a 09.06.2017 às 05:28

Na minha terra ainda há pouco tempo foram avistadas essas senhoras...
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De Maria Araújo a 09.06.2017 às 12:53


Eu seu que elas ainda existem, ahahaha ( há que fazer pela vida).
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De Chic'Ana a 08.06.2017 às 11:24

Nunca me cruzei com nenhuma em algum funeral... e ainda bem, a dor já é demasiado intensa e emotiva para existirem mais pessoas a exacerbar esse sentimento..
Beijinhos
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De Maria Araújo a 08.06.2017 às 11:29

E mesmo assim, ainda há, agora sem berros e teatros, quem vá para os funerais ver quem morreu e bisbilhotar baixinho quem é, o que fazia, os males que fez, o dinheiro que deixou, e tal...
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 09:22

Adorei! Michel Giacometti é uma referência na etnologia portuguesa, sobretudo na vertente da música popular (não confundir com "pimba").
Hoje trouxe-nos um conteúdo daqueles! Parabéns!
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De Maria Araújo a 08.06.2017 às 10:49

Obrigada, Robinson.
Sabe que o nome Michel Giacometti dizia-me alguma coisa?
Quando li o documentário, e que vou ler melhor, já que este texto foi feito à noite, e vi o nome do programa, de facto o título levou-me atrás no tempo, mas na altura, certamente, não o acompanhei na totalidade.
Há muito a ver e fiquei satisfeita com a pesquisa que fiz.
Quanto às carpideiras, lembro-me dos gritos e choradeiras, que odiava, de verdade, mas na altura não sabia que eram pagas para isso.
Era jovem, queria eu lá saber disso? Ahahahah!
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 13:36

É natural :-)

Olhe que existe um contributo deste senhor espalhado por alguns museus deste país, pode ser um bom começo :-)

Já não soube o que eram as carpideiras, mas era algo muito revestido de um certo ritual da morte, quase que obrigatório :-)
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De Maria Araújo a 08.06.2017 às 15:53

Hei-de procurar se há alguma referência a este senhor, aqui pela cidade.
Esse ritual de morte fazia parte da cultura de algumas aldeias do norte.
Sabe que me lembrei que "as carpideiras" dos tempos modernos são, agora, os pagadores de promessas.
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De Robinson Kanes a 08.06.2017 às 17:54

Sim, só que as carpideiras eram mais baratas .-)
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De Maria Araújo a 08.06.2017 às 20:00

Pois!
O povo é fino, faz promessas que não pode, prefere pagar a quem caminha por eles os longos quilómetros, logo tem de custar caro, e é mais discreto.
Já imaginou o Robinson, jovem que é, fazer uma promessa por mim, ganha 2500 euros, não precisa de vir a Braga, faz o percurso a partir do lugar onde vive (mas tem de completar os quilómetros que leva de Braga a Fátima), fazia exercício, aumentava a massa muscular, ficava com o corpinho nos trinques e o dinheirinho no bolso.
Eu exigiria o percurso via telemóvel, não fosse fazer batota.
Ou então teria de fazer ida e volta, para que a promessa ficasse cumprida.
Ah! Mas tinha de rezar o terço. Tudo incluído.
Cumprimentos.
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De Robinson Kanes a 09.06.2017 às 09:14

Não sou a pessoa mais religiosa do mundo mas… Não me parece que Deus pudesse ficar mais contente se alguém pagasse a outrem (e não é pouco) para cumprir uma…

Tenho de rever a minha carreira profissional :-)
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De Maria Araújo a 09.06.2017 às 12:52

Faço minhas as suas palavras, mas acho que deve MESMO, rever a sua carreira
profissional, eheh!
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De Pedro Coimbra a 08.06.2017 às 05:06

Nunca esquecerei uma carpideira que foi corrida por um amigo meu, infelizmente já falecido, no funeral da sogra.
Que ela (carpideira) confessou que nem sequer conhecia.
E se ela chorava e berrava!!
O meu amigalhaço mandou-a sair e não voltar.
Bjs
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De Maria Araújo a 08.06.2017 às 10:50

Aqui em Braga era frequente aparecerem nos funerais, quase se deitavam em cima do caixão, fazia-me uns nervos!
Odiava aquilo.
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De Kalila a 08.06.2017 às 00:48

Aquilo era uma "arte"! Algumas eram tão convincentes que punham toda a gente a chorar, essas eram recomendadas e cobravam mais. Eu sou de Lisboa, nunca tive contacto com essa realidade mas a piada dos nossos "enterros de bacalhau" nas quartas-feiras de cinzas era precisamente os "carpires" que imitavam os velórios da província.
Beijocas, amiga.
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De Maria Araújo a 08.06.2017 às 10:55

Ahahahahah!
Agora, Kalila, são os pagadores de promessas.
Que fino!

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